Um Escritor Universal

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Ferreira de Castro: um escritor universal

 por António Amorim  

A redescoberta de Ferreira de Castro não é um revivalismo piedoso; é, sim, a antecipação do sentido em que a história contemporânea vai decantando as obras literárias genuinamente universais

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A 24 de Maio de 1898 nascia, na freguesia de Ossela, às margens do Caima, concelho de Oliveira de Azeméis, José Maria Ferreira de Castro, primogénito de um casal de camponeses pobres. Órfão de pai aos oito anos, a precária subsistência dos seus e o desejo veemente de antecipar a maturidade, se não na biologia pelo menos nos gestos, cedo o empurraram para a aventura da emigração brasileira. É assim que, aos doze anos de idade, cruza o oceano, entregue a si próprio, rumo a terras de Vera Cruz. Depois de um curto interregno em Belém do Pará, abala até aos fundões do rio Madeira, destinado ao trabalho num seringal inóspito, em plena seiva amazonense. Que uma criança tímida e inexperiente como era o pequeno campónio de Ossela tenha sobrevivido a esta provação é, em si mesmo, digno de registo. Que, além disso, o saldo desses quatro anos de «inferno verde», irrelevante em proventos matérias, tenha sido a decisão inabalável de se cumprir como escritor, é motivo de espanto (Vide «Ferreira de Castro e a atracção do abismo», de A. Amorim, Caima-Press Edições, 1998).

Regressado à capital do Pará, arrasta, nos primeiros dois anos, uma existência de pária, subsistindo de expedientes ocasionais. A ociosidade relativa a que se vê forçado, aproveita-a, contudo, para satisfazer a fome insaciável de leituras na Biblioteca Pública da cidade -- uma avidez tanto maior quanto mais limitada a sua formação escolar, que não ia além da quarta classe. 1916 será, porém, um ano de mudança: não só consegue publicar em fascículos o seu primeiro romance, «Criminoso por Ambição» -- o conteúdo mais substancioso da bagagem que trouxe do seringai atrás referido --, como também se introduz nos círculos jornalísticos da colónia lusa de Belém. Aí fará carreira até ao regresso a Portugal, em finais de 1919. Mas a afirmação no meio jornalístico e literário lisboeta, refractário a «novos» - sobretudo os que não dispunham de cartas de recomendação nem de apadrinhamentos - e mais ainda a adventícios, não será fácil. Só uma abnegação e uma capacidade de sacrifício pouco comuns obstam a que não ceda à fome e ao desespero dos primeiros três anos.

«A Selva», um êxito imediato

A publicação de «Emigrantes», em 1928 e, sobretudo, a de «A Selva», em 1930, abrem, finalmente, um novo e promissor capítulo na biografia literária de Ferreira de Castro. Êxito editorial imediato no país, «A Selva» será a sua rampa de lançamento além fronteiras, sobretudo depois de 1933, data da primeira edição alemã do romance, traduzido por Arnold Hollriegel. Em 1938, a versão francesa de Blaise Cendrars será o potenciador suplementar de uma carreira internacional apoteótica. Tanto que, em Outubro de 1948, o romance achava-se já traduzido em vinte línguas estrangeiras, sem falar de uma edição em Esperanto (1939). A publicação, em 1947, de «A Lã e a Neve» ocasionará um novo surto de traduções, não tão expressivo como o de «A Selva» mas, ainda assim, absolutamente excepcional, na época, para um autor português. Entre estes dois romances, marcos milenários [sic] da sua produção ficcional, sucederam-se «Eternidade» (1933), «Terra Fria» (1934), «Pequenos Mundos e Velhas Civilizações» (1937), «A Tempestade» (1940) e «A Volta ao Mundo» (1941-44). De 1947 até à sua morte, em 1974, a sua bibliografia completar-se-á com «A Curva da Estrada» (1950), «A Missão» (1954), «As Maravilhas artísticas do Mundo» (1955-63), «O Instinto Supremo» (1968) e, a título póstumo, «Os Fragmentos» (1974). A projecção internacional do escritor e, por tabela, o papel que lhe coube na divulgação da língua e da literatura portuguesas, ficam bem patentes na tiragem das edições estrangeiras da sua obra: em começos dos anos oitenta, excedia já os 600.000 exemplares.

Quanto a homenagens, prémios, convites para ingressar em academias literárias e outras distinções, formam uma corrente ininterrupta desde, pelo menos, «Emigrantes». Uma vasta panóplia onde avultam, em matéria de homenagens, as duas visitas triunfais ao Brasil, em 1959 e 1971; os prémios «Ricardo Malheiros» (1934), «Catenacci» (1965), «Aigle d' Or» (1970) e «Gulbenkian» (1971); as propostas de candidatura ao prémio Nobel, nomeadamente a de 1968, em conjunto com Jorge Amado, patrocinada pela União Brasileira de Escritores e a Academia Brasileira de Letras e apoiada, do lado português, por uma plêiade ilustre de romancistas, poetas, escritores, críticos e artistas plásticos.

Redescobrir a obra

A partir dos anos oitenta, modismos vários, a que não é alheia a influência de certos pontificados institucionais - universitários e do «milieu» critico e intelectual que com aqueles comunga -, ditaram o progressivo afastamento de Ferreira de Castro do proscénio das letras. Hoje, apesar de continuar a ser lido, como se infere do movimento reeditorial, lento mas constante, de que continua a ser objecto, está votado a uma pronunciada invisibilidade. Um purgatório, como diria Fernando Savater, cujo fim, contudo, se anuncia cada vez mais próximo.

Disso são sintoma as teses académicas e os estudos de especialistas que, tanto em Portugal como no estrangeiro, têm vindo a lume, numa renovação de interesse pela obra e pelo homem. Esta redescoberta e a revalorização que lhe subjaz estão longe de ser fortuitas. Com efeito, a cosmovisão emergente da obra do escritor é de uma inequívoca actualidade.

Uma das promessas da idade moderna mais clamorosamente frustrada pela história contemporânea é, por ventura, a da fraternidade. Ora, radica nela a utopia que imbui e dá sentido à obra e à vida do escritor. Uma «boa utopia», para usar a expressão de Edgar Morin, constantemente invocada por Ferreira de Castro como um mundo sem fronteiras nem guerras, um reino de fraternidade e de amor.

Sublimar as vivências

Com o fim da «guerra fria», no relativo vazio criado pela pulverização das grandes referências emancipatórias da primeira metade do século passado, insinua-se o rolo compressor do «pensamento único». Sobre este fundo inquietante, a obra de Ferreira de Castro reabilita a transcendência do «outro», a convicção antropolátrica da capacidade redentora da espécie, uma esperança indeclinável num mundo melhor onde a justiça não sacrifique a liberdade. Esta utopia, no plano ético, traduz-se em dois princípios axiais: a tolerância compreensiva e a compaixão. Se o primeiro pressupõe a identificação plena com o «outro» e, nessa conformidade, a recusa a julgá-lo - derradeira clarividência de um «Alberto», em «A Selva» -, o segundo resolve-se no reconhecimento do drama alheio e na capacidade de perdão - gesto emblemático de um «Alexandre Novais», na cena que fecha o episódio de «Casas Viejas», em «O Intervalo». Num mundo pululante de nacionalismos, integrismos, fundamentalismos, xenofobias e outras diabolizações do «outro», a mensagem veiculada por estes princípios éticos tem a pertinência de um antídoto.

Princípios corroborados pela sua vida, de uma coerência sem mácula, e estruturantes da sua obra. Como seria de esperar de um escritor para o qual a actividade criadora é uma espécie de metabolização sublimatória das suas vivências fundamentais. Uma alquimia responsável pelo que gosto de chamar a espessura vivencial da sua escrita, que alguns comentadores falsamente sofisticados, malévolos ou pura e simplesmente ignorantes, confundem com simplismo. Bem pelo contrário, é essa espessura que confere autenticidade à sua obra, preservando-a de doutrinarismo e, ao mesmo tempo, dotando-a do que João Gaspar Simões considerava a pedra angular do romancista: a imaginação psicológica.

A redescoberta de Ferreira de Castro não é, em suma, um revivalismo piedoso; é, sim, a antecipação do sentido em que a história contemporânea vai decantando as obras literárias genuinamente universais.

 

Figuras e Factos do Século (Revista especial do Diário de Aveiro, separata do número de 16/11/2004), pp. 26-27.

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