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A
redescoberta de Ferreira de Castro não é um revivalismo piedoso; é, sim, a
antecipação do sentido em que a história contemporânea vai decantando as
obras literárias genuinamente universais
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A
24 de Maio de 1898 nascia, na freguesia de Ossela, às margens do Caima,
concelho de Oliveira de Azeméis, José Maria Ferreira de Castro, primogénito
de um casal de camponeses pobres. Órfão de pai aos oito anos, a precária
subsistência dos seus e o desejo veemente de antecipar a maturidade, se não na
biologia pelo menos nos gestos, cedo o empurraram para a aventura da emigração
brasileira. É assim que, aos doze anos de idade, cruza o oceano, entregue a si
próprio, rumo a terras de Vera Cruz. Depois de um curto interregno em Belém do
Pará, abala até aos fundões do rio Madeira, destinado ao trabalho num seringal
inóspito, em plena seiva amazonense. Que uma criança tímida e inexperiente
como era o pequeno campónio de Ossela tenha sobrevivido a esta provação é,
em si mesmo, digno de registo. Que, além disso, o saldo desses quatro anos de
«inferno verde», irrelevante em proventos matérias, tenha sido a decisão
inabalável de se cumprir como escritor, é motivo de espanto (Vide «Ferreira
de Castro e a atracção do abismo», de A. Amorim, Caima-Press Edições,
1998).
Regressado
à capital do Pará, arrasta, nos primeiros dois anos, uma existência de pária,
subsistindo de expedientes ocasionais. A ociosidade relativa a que se vê forçado,
aproveita-a, contudo, para satisfazer a fome insaciável de leituras na
Biblioteca Pública da cidade -- uma avidez tanto maior quanto mais limitada a
sua formação escolar, que não ia além da quarta classe. 1916 será, porém,
um ano de mudança: não só consegue publicar em fascículos o seu primeiro
romance, «Criminoso por Ambição» -- o conteúdo mais substancioso da bagagem
que trouxe do seringai atrás referido --, como também se introduz nos círculos
jornalísticos da colónia lusa de Belém. Aí fará carreira até ao regresso a
Portugal, em finais de 1919. Mas a afirmação no meio jornalístico e literário
lisboeta, refractário a «novos» - sobretudo os que não dispunham de cartas
de recomendação nem de apadrinhamentos - e mais ainda a adventícios, não será
fácil. Só uma abnegação e uma capacidade de sacrifício pouco comuns obstam
a que não ceda à fome e ao desespero dos primeiros três anos.
«A
Selva», um êxito imediato
A
publicação de «Emigrantes», em 1928 e, sobretudo, a de «A Selva», em 1930,
abrem, finalmente, um novo e promissor capítulo na biografia literária de
Ferreira de Castro. Êxito editorial imediato no país, «A Selva» será a sua
rampa de lançamento além fronteiras, sobretudo depois de 1933, data da
primeira edição alemã do romance, traduzido por Arnold Hollriegel. Em 1938, a
versão francesa de Blaise Cendrars será o potenciador suplementar de uma
carreira internacional apoteótica. Tanto que, em Outubro de 1948, o romance
achava-se já traduzido em vinte línguas estrangeiras, sem falar de uma edição
em Esperanto (1939). A publicação, em 1947, de «A Lã e a Neve» ocasionará
um novo surto de traduções, não tão expressivo como o de «A Selva» mas,
ainda assim, absolutamente excepcional, na época, para um autor português.
Entre estes dois romances, marcos milenários [sic] da sua produção ficcional,
sucederam-se «Eternidade» (1933), «Terra Fria» (1934), «Pequenos Mundos e
Velhas Civilizações» (1937), «A Tempestade» (1940) e «A Volta ao Mundo»
(1941-44). De 1947 até à sua morte, em 1974, a sua bibliografia completar-se-á
com «A Curva da Estrada» (1950), «A Missão» (1954), «As Maravilhas artísticas
do Mundo» (1955-63), «O Instinto Supremo» (1968) e, a título póstumo, «Os
Fragmentos» (1974). A projecção internacional do escritor e, por tabela, o
papel que lhe coube na divulgação da língua e da literatura portuguesas,
ficam bem patentes na tiragem das edições estrangeiras da sua obra: em começos
dos anos oitenta, excedia já os 600.000 exemplares.
Quanto
a homenagens, prémios, convites para ingressar em academias literárias e
outras distinções, formam uma corrente ininterrupta desde, pelo menos, «Emigrantes».
Uma vasta panóplia onde avultam, em matéria de homenagens, as duas visitas
triunfais ao Brasil, em 1959 e 1971; os prémios «Ricardo Malheiros» (1934),
«Catenacci» (1965), «Aigle d' Or» (1970) e «Gulbenkian» (1971); as
propostas de candidatura ao prémio Nobel, nomeadamente a de 1968, em conjunto
com Jorge Amado, patrocinada pela União Brasileira de Escritores e a Academia
Brasileira de Letras e apoiada, do lado português, por uma plêiade ilustre de
romancistas, poetas, escritores, críticos e artistas plásticos.
Redescobrir a obra
A
partir dos anos oitenta, modismos vários, a que não
é alheia a influência de certos pontificados institucionais - universitários
e do «milieu» critico e intelectual que com aqueles comunga -, ditaram o
progressivo afastamento de Ferreira de Castro do proscénio das letras. Hoje,
apesar de continuar a ser lido, como se infere do movimento reeditorial, lento
mas constante, de que continua a ser objecto, está votado a uma pronunciada
invisibilidade. Um purgatório, como diria Fernando Savater, cujo fim, contudo,
se anuncia cada vez mais próximo.
Disso
são sintoma as teses académicas e os estudos de especialistas que, tanto em
Portugal como no estrangeiro, têm vindo a lume, numa renovação de interesse
pela obra e pelo homem. Esta redescoberta e a revalorização que lhe subjaz estão
longe de ser fortuitas. Com efeito, a cosmovisão emergente da obra do escritor
é de uma inequívoca actualidade.
Uma
das promessas da idade moderna mais clamorosamente frustrada pela história
contemporânea é, por ventura, a da fraternidade. Ora, radica nela a utopia que
imbui e dá sentido à obra e à vida do escritor. Uma «boa utopia», para usar
a expressão de Edgar Morin, constantemente invocada por Ferreira de Castro como
um mundo sem fronteiras nem guerras, um reino de fraternidade e de amor.
Sublimar
as vivências
Com
o fim da «guerra fria», no relativo vazio criado pela pulverização das
grandes referências emancipatórias da primeira metade do século passado,
insinua-se o rolo compressor do «pensamento único». Sobre este fundo
inquietante, a obra de Ferreira de Castro reabilita a transcendência do «outro»,
a convicção antropolátrica da capacidade redentora da espécie, uma esperança
indeclinável num mundo melhor onde a justiça não sacrifique a liberdade. Esta
utopia, no plano ético, traduz-se em dois princípios axiais: a tolerância
compreensiva e a compaixão. Se o primeiro pressupõe a identificação plena
com o «outro» e, nessa conformidade, a recusa a julgá-lo - derradeira
clarividência de um «Alberto», em «A Selva» -, o segundo resolve-se no
reconhecimento do drama alheio e na capacidade de perdão - gesto emblemático
de um «Alexandre Novais», na cena que fecha o episódio de «Casas Viejas»,
em «O Intervalo». Num mundo pululante de nacionalismos, integrismos,
fundamentalismos, xenofobias e outras diabolizações do «outro», a mensagem
veiculada por estes princípios éticos tem a pertinência de um antídoto.
Princípios
corroborados pela sua vida, de uma coerência sem mácula, e estruturantes da
sua obra. Como seria de esperar de um escritor para o qual a actividade criadora
é uma espécie de metabolização sublimatória das suas vivências
fundamentais. Uma alquimia responsável pelo que gosto de chamar a espessura
vivencial da sua escrita, que alguns comentadores falsamente sofisticados, malévolos
ou pura e simplesmente ignorantes, confundem com simplismo. Bem pelo contrário,
é essa espessura que confere autenticidade à sua obra, preservando-a de
doutrinarismo e, ao mesmo tempo, dotando-a do que João Gaspar Simões
considerava a pedra angular do romancista: a imaginação psicológica.
A
redescoberta de Ferreira de Castro não é, em suma, um revivalismo piedoso; é,
sim, a antecipação do sentido em que a história contemporânea vai decantando
as obras literárias genuinamente universais.
Figuras e Factos do Século (Revista especial do Diário de Aveiro,
separata do número de 16/11/2004), pp. 26-27.
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