Testemunho

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Texto da conferência proferida no dia 30 de Maio, no ciclo de conferências organizado para celebrar o centenário do nascimento de Ferreira de Castro; todas as outras serão publicadas em Folhas 3 do Grupo Poético de Aveiro, volume especialmente consagrado ao escritor, para o qual Cecília Sacramento já tinha dado o texto "Recordando".

Testemunho

por Cecília Sacramento

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Minhas Amigas e meus Amigos:

Este monólogo que agora começo acabará por ser um diálogo, visto que todos nós, vocês e eu, viemos até aqui para homenagear esse admirável homem, quase nosso conterrâneo, que foi Ferreira de Castro. Falarei, pois, em meu e vosso nome, ao evocá-lo. Que é isso o que neste momento desejo: trazê-lo para aqui em tempo de recordação e de admiração. Não me tocam outras intenções, como a de estar a discutir, numa assembleia destas, formalismos ou teorias literárias. Se no final, quiserem ter a gentileza das vossas palmas, dedicá-las-ei, em espírito e em emoção, à memória do homem que aqui viemos homenagear, lembrando a sua vida e a sua obra. A esse respeito, pois, vou começar por citar a opinião de um atento leitor de Ferreira de Castro, com a qual estou inteiramente de acordo: "A vida e a obra de Ferreira de Castro, mais do que as da grande maioria dos escritores, constituem uma unidade inseparável de expressão humana". De facto, a sua obra é como um espelho onde o criador é reflectido, com uma parecença impressionante. Este, porém, é um espelho mágico, que mostra uma imagem interior, ao contrário dos espelhos vulgares que nos dão o lado exterior da pessoa. Assim, penso também que a Obra também explica o Homem que a ergueu, trazendo da sua experiência e da sua vivência a seiva que frutificou a criação. O Homem, a sua vida, as suas atitudes, iluminam os caminhos para a percorrermos nas vertentes fundamentais. Falar da obra, pois, é falar do seu criador, pelas marcas que, nela, ficaram a sugerir, a identificar. Como um rasto. Recordar será aqui, mais do que nunca, aquilo que etimologicamente está contido na palavra, a partir da sua raiz latina, cordis, que significa coração, portanto: sentir, viver de novo, através do coração, da alma, da emoção, a trajectória de uma vida, não posta na ficção, mas motivadora da ficção. E aqui nos espanta logo o facto de uma vida como a de Ferreira de Castro não ter ficado dentro da trama dos seus romances — uma vida quase uma aventura, se não tivesse sido, fundamentalmente até certa altura, acto contínuo de amor e sofrimento. Mas esse clima de aventura e os restantes aspectos aparecem bem distanciados da intriga que percorre a ficção, que nunca se transforma numa cópia, mas em realidade, quando muito, paralelas, como é humano acontecer. E, como ia dizendo, espanta-nos que os seus romances ultrapassem, mas em larga medida, o caminho da autobiografia, para serem, essencialmente, o olhar comovido de um homem, face à vida e aos outros homens. Sobretudo aos mais tocados pelo sofrimento, vindo das mais variadas causas e circunstâncias. Evidentemente que "A Selva", " Emigrantes", "Eternidade", "A Lã e a Neve", etc. — para não citar exaustivamente toda a obra de Ferreira de Castro -, evidentemente que estas obras vêm de caminhos conhecidos e que, até, uma ou outra vez, há paragens nesses caminhos, há situações de vidas paralelas — mas que grande painel de personagens, que grande extensão de lugares, de casos, que problemas, que buscas e acontecimentos nos seus livros que não são da vida que lhe coube viver! Sem dúvida que Ferreira de Castro nunca teria escrito essa saga humana, a que chamou "A Selva", se não tivesse passado quatro anos no horror da floresta amazónica, não teria escrito "Emigrantes", se não tivesse vivido a amargura de deixar a sua pátria e a família, mormente na idade em que tudo se deu. Etc. Etc. Sim, como disse, a obra nasce da vida e é nela que a leitura do seu percurso humano está eloquentemente documentada. Experimentada. Repetida. Mas por outros. Para os quais Ferreira de Castro olhava com a mais enternecida solidariedade. E foi sempre o outro homem que ele encontrava nos caminhos conhecidos, sim, que ficou nas suas páginas, a viver, a recontar, a lutar, a morrer—a transmitir a vida. Os outros, sempre os outros. Até dessa bela obra "As Maravilhas Artísticas do Mundo", até essa extraordinária obra, (que não tem nada a ver com ficção, é evidente, mas não é isso que aqui nos interessa) até essa obra, que mereceu o honrosíssimo Prémio Catanacci, dado pela Academia das Belas-Artes de França, nos surpreende pelo que, acima de tudo, as suas "maravilhas" mostram. Ao contrário do que se esperaria — serem uma descrição de criatividades de ordem estética — elas são, antes e sobretudo, "um testemunho apaixonante da experiência humana na dor, na alegria, na perplexidade, na esperança, no desanimo". Precisamente aquilo que Ferreira de Castro mais procurou deixar em tudo quanto escreveu: a alegria e a dor do viver. E, no mundo em que viveu, foi a dor do viver que mais encontrou e que mais o tocou. Foi sempre o homem injustiçado que ele escolheu para destinatário da sua fraternidade. Com ele sempre. Na vida e na obra. Nos caminhos dele, meditando sobre tantas afrontas, perigos e sacrifícios; em busca de verdades e princípios que banissem os males evitáveis e levassem todo o ser à Dignidade que lhe é devida.

"Aquilo que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós... ao sermos tocados, quando dedos sentem, no silêncio do pulso, a veia"—disse, de uma forma tão feliz, Clarice Lispector. A veia, sim, a vida, o pulsar da vida, a força que nos impele. Cada um a sua maneira, na sua realização pessoal. Aquilo que o impossível criou em Ferreira de Castro foi essa extrema força de natureza estética, esse pendor para a arte, que todo o grande humanista realiza, quando conta aquilo que a nossa Sophia lapidarmente sintetizou: "Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo". Homens desse carisma meditam, interrogam, lutam com armas de talento e amor — meditam com tal profundidade que chegam à lucidez de ver o que há de "fecundo, de projecção para o futuro, na rebeldia dos homens". São esses idealistas, raros infelizmente, que passam por aí a dar aos outros os frutos amadurecidos da sua criatividade—histórias, pinturas, melodias, num mundo em que encontram ainda homens desumanizados a atirarem bombas e sofisticadas excrescências mortíferas sobre as flores dos nossos prados, o pão dos nossos campos, sobre as nossas crianças, os nossos afectos, as veias que pulsam a escrever — a vida. Dessa têmpera foi, como sabemos, o nosso Ferreira de Castro. Viveu, lutou, sofreu, sempre no campo da dignidade humana, por mais adversas que fossem as circunstâncias, mesmo até quando "se sentia desagregado, metade na terra, metade no infinito". E deu-nos esses livros maravilhosos, que não eram, não são, meros livros de papel, mas de inigualável companhia e humanidade. "A verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, porque só ela é imortal", disse um grande poeta. É profundamente cativante que a ficção de Ferreira de Castro — portanto a sua palavra escrita — tenha merecido a um crítico como Óscar Lopes esta opinião: "Da obra de Ferreira de Castro, destaca-se o maravilhoso — o maravilhoso comunicado por alguém que muito sabe porque muito viveu". Eu escreveria, a acompanhar esta magnífica súmula, esta outra opinião assumida por outro grande escritor: "Legítima literatura deve ser vida. Não há nada mais terrível que uma literatura de papel, pois acredito que a literatura só pode nascer da vida, que ela tem de ser aquilo a que chamo «compromisso do coração»". E eu acrescentaria: e compromisso do Sonho. Que também é da Vida. Como o perfume é da flor. Aí chegou o nosso grande ficcionista — ao Sonho — apesar do muito que sofrera. Ao Sonho, até porque era um homem de esperança e queria apagar da realidade a dor maior — a morte, que paira a vida inteira sobre as criaturas, como uma espada de fogo. E mais ainda: desejava que não só ele, mas todos os homens pudessem banir tal dor da existência, acabando, para sempre, com o absurdo da morte. Abra-se a primeira página de "Eternidade" e leiam-se as palavras que dirige, no Pórtico da Legenda, ao "irmão longínquo", ao que há-de viver, um dia, sem temer a morte, que entretanto terá sido vencida e banida pela Ciência, que há-de humanizar, cada vez mais, este mundo. Palavras utópicas? A maioria dirá que sim. Mas o homem já conseguiu tantas, mas tantas vitórias... que talvez possam ser, sim, palavras de esperança. Apetecia dizer: obrigada, Ferreira de Castro, pela força que nos dás.

Apetecia também, se as circunstâncias fossem outras, debruçar-nos longamente sobre a obra de tal escritor, fruí-la na intimidade das mensagens que nos deixa, depois de nos dizer o tanto que sabia do tanto que vivera. Mas não é possível, por razões obvias. Direi, em brevidade, o que nela é tão longo e forte e belo ou doloroso e angustiante.

Sabemos todos do êxito extraordinário e imediato das suas primeiras obras. Vencida a travessia do Atlântico pela criança de 12 anos, que deixava a pátria, a mãe, a família e os amigos, para ganhar a vida, numa emigração tão dolorosa, vencida a batalha ingente contra a natureza, a fauna e as criaturas da floresta aonde fora parar, que ironicamente se chamava seringal Paraíso, vencido o inferno de que saíra vivo, ao cabo de 4 anos, — lança-se na outra luta urgente do pão e abrigo e, a par dessa, da luta mais estranha e tão difícil de ser ultrapassada—a da necessidade de dar resposta ao apelo maior, constante e absorvente, que o percorria — o da escrita. O de dizer aos outros o tanto que sabia da vida, o tanto que em si ficara da mais dolorosa experiência por que passara. E vai, aos poucos, dando resposta a tal apelo, inventando forças e disponibilidade que não existem — e começa, penosamente, por certo, a lançar as urgentes palavras no papel, como quem tem de deixar cair estrelas que lhe queimam os dedos — labor que arrasta a desoras, cansadíssimo de duras jornadas e carente de tanta coisa. Assim nascem sucessivamente os livros que irão correr mundo e que podemos considerar os mais impressionantes mensageiros do nosso pequenino Portugal. Em sucessivas e sucessivas edições, em sucessivos e sucessivos êxitos, em tiragens de números astronómicos que atingem os 30.000 exemplares de cada vez e que se repetem em toda a Europa, em todo o Brasil, enfim, em todas as mais cultas nações do mundo.

Não poderia referir aquilo que levaria horas a dizer. Apontarei, para exemplo, que a primeira grande obra publicada em 1928, "Emigrantes", para lembrar que foi ela que lhe abriu as portas da Imortalidade. E a nós, seus compatriotas, a alegria imensa de termos um escritor desta envergadura, que dava à nossa língua uma projecção internacional. Recordarei ainda que o valor desta obra foi de imediato reconhecido, principalmente no Brasil e na França. E, mais tarde, ao ser comemorado o 25° aniversario da sua publicação, já enriquecida pelo nosso prémio Ricardo Malheiro, que lhe havia sido concedido pela Academia das Ciências de Lisboa, foi entregue ao escritor uma mensagem subscrita por muitos milhares de assinaturas de leitores que comovidamente lhe quiseram dizer o seu carinho e a sua admiração. Essa obra antecipou-se, em bastantes anos, as de temas semelhantes na literatura das Américas e da corrente a que chamamos o nosso neo-realismo. Foi pioneira e foi o veículo mais extraordinário da língua portuguesa, traduzida em todas as línguas cultas do mundo.

Referirei seguidamente "A Selva", esse outro livro que o homem trazia no fundo do seu ser desde os anos em que viveu-morreu na floresta amazónica. Obra tão sofrida que, a seu respeito, ele teve este impressionante desabafo (de que cito apenas algumas passagens), quando, sem tecto, sem pão, sem ninguém... sonhando constantemente que se encontrava na selva (na de verdade, na Amazónia) tinha pesadelos constantes quando dormia, confessando que "foi por isso, talvez, que durante muitos anos tive medo de revivê-la literariamente. Um medo frio, que ainda hoje sinto, quando os amigos me incitam a escrever memórias... Enfim, 14 anos vividos tormentosamente sobre a noite em que abandonei o seringai Paraíso, pude sentar-me à mesa de trabalho para começar este livro".

"A Selva" foi escrita em 7 meses, em 2 dos quais mal tendo tocado no manuscrito. "Era das 6 as 8 da noite que ia penosamente cansado para a escrita — diz ele, acrescentando: "Se é verdade que neste romance a intriga tantas vezes se afasta da minha vida, não é menos verdadeiro que a ficção se tece sobre um fundo dramaticamente vivido. Tanto, tanto, que certas noites suspendia bruscamente o trabalho, só por não poder suportar mais o clima que o meu próprio espírito criara". E, à luz de um pobre candeeiro, foi escrito, assim penosamente, o livro que lhe havia de abrir ainda mais as portas da fama. Todos sabemos. Os êxitos repetem-se e, como uma chuva de flores iluminadas, a fama cai por todo o mundo civilizado, que o traduz, que o lê avidamente, que dele diz, pela pena dos maiores críticos da época, os mais altos elogios, que apetecia reler, eu sei, para revivermos tal acontecimento. Ler o que se disse — seria como ler um romance paralelo à "A Selva". Só este pormenor: Humberto de Campos, a maior figura da literatura brasileira do tempo, escreveu — e leio apenas as últimas palavras da sua crítica, que são uma exclamação, um espanto. Diz ele: "chegado ao fim do livro, posso exclamar: A Amazónia esta aqui!"

Todas as exigências criticas se curvaram, em preito de homenagem, perante a variedade dos seus sortilégios ao contar. É que a sua palavra escrita aparece envolta numa aura de grandeza, de poder expressivo, de filão de ouro, como raramente acontece. só aos maiores. Mas Ferreira de Castro foi um dos maiores. Por isso mesmo ainda hoje o é, pese embora o "fora de moda" em que parece ter sido inserido, não sei por que tão estranhos e balofos critérios...

Não poderei relembrar convosco páginas e páginas da suas obras que, mesmo relidas, nos deixam sempre um fundo fascínio. Apenas quero deixar dois ou três traços a sublinhar a altura a que se ergueu o seu discurso literário. Difícil tarefa, com o relógio do bom senso a apontar-me o tempo. Para sintetizar, vou socorrer-me da transcrição de duas ou três epígrafes que abrem a bela edição comemorativa do XXV aniversário de "A Selva". Uma epígrafe, como sabemos, é o sempre um passar rápido do essencial que se estende pelas páginas que se vão ler. Ouçamos esta de Tavares Bastos: "No alto Amazonas, principalmente, domina esse amargo sentimento que obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma".

Esta outra de Pinedo: "Ser forçado a descer naquele horror, mesmo que se aterre incólume, é ficar onde se desceu e morrer sepultado na sombra". Sobre o seringal Paraíso, escreveu Matias Arrudão: "O drama do Paraíso ainda se repete, quase todos os dias, na terra onde os homens não rezam. Não rezam, porque os grandes olhos de Deus não podem descer até aqueles brejais". Palavras estas, as que citei, abanam a nossa sensibilidade, antes de lermos as que se seguem por páginas e páginas em que o artista pinta sem tintas, só com o traço de uma escrita polícroma, a trágica vastidão de um mar verde e o drama insuspeitado das gentes que nele sobrevivem ou morrem. Eu diria aqui aquilo que Fernando Pessoa disse de si próprio, pela boca de Álvaro Campos: que sofre no coração a viva dor do mundo — esse coração que ele diz "ser um pouco maior que o universo". Hipérbole de palavras certas para Ferreira de Castro, que também tinha um coração um pouco maior que o universo. Pudéssemos nós reler passos e passos do timbre criativo a que chegou o nosso escritor, trazendo para os nossos olhos imagens da vastidão, do abismo e da vertigem da morte; da desolada existência de seres humanos que vivem para "além da dor" — ou, inversamente, da beleza que escorre dos recantos e riachos da nossa maravilhosa Madeira; dos momentos de enternecida vivência que nesse paraíso paisagístico passou; das figuras de força e coragem que se erguem a atravessar serranias, onde cai a neve e o vento uiva, varrendo as forças físicas com um frio mortal; da altura intelectual que atinge ao traçar linhas de pensamento e de acção na problemática em que dois homens se confrontam, presentes e distantes em fossos que tanta vez se cavam a dividir vontades; vê-lo a percorrer este nosso vasto mundo, lendo as mensagens que nele encontrou, quer na arte, quer nos momentos, quer nas gentes. Mesmo nas mais humildes. E, esta mão de magia que tanto deixa no papel o que há de belo e de sonho no nosso mundo, de bom e de fraterno nas suas criaturas, como o que nele há de apagado e vil nos caminhos da Dignidade. E esta mão de magia que cria momentos de envolvente vivência e de beleza e de paz, como este que não resisto a transcrever:

"Parecia que lá em baixo se tinham posto a dormir. Nenhum ruído perturbava a quietação da serra, a paz luminosa que ia desde as ravinas aos píncaros, ao céu largo e azul, limpo das nuvens de há pouco. E, nesse grande silêncio, dir-se-ia que tudo se tomara imensurável, profundo e eterno".

E esta mesma mão que cria momentos opostos a este, de "música épica desesperada, tocada por instrumentos desvairados", diz, "das vidas que não viviam": "já não era a triste litania que a selva entoava; um uivo forte, perene e agoirento, viera substituir... a monótona cantilena. A brenha uivava, ramalhava, contorcia-se sob o vendaval que conduzia para longe a sua música épica e desesperada" cada vez arfava mais, rangia por toda a parte, prestes a destruir-se a si mesma, no seu imenso clamor".

Como dizer mais? E melhor? Sabemos como será difícil.

E, todavia, houve um livro que Ferreira de Castro não soube escrever, apesar de, todo o talento que o habitava. Foi uma história de amor. Não pôde, não soube escrever, a dor da perda da mulher amada. Ele o confessa, não em espaços de ficção, (a não ser em paragens de lembranças e de meditação no romance "Eternidade") mas de desabafo pessoal, no prefácio que abre a já citada edição comemorativa do XXV aniversario da publicação de "A Selva". A respeito deste livro e da altura em que saiu, que foi precisamente dias antes da morte de Diana de Liz, a sua companheira, a quem era dedicado, diz ele:

"Dias depois da sua publicação, perdia-a (a mulher amada) para sempre, e esta obra, escrita ao calor da sua ternura, transformou-se numa recordação muito mais trágica ainda do que todas as outras que lhe haviam dado origem. Dir-se-ia que "A Selva", drama dos homens perante a injustiça de outros homens e a violência da natureza, estava destinada a ser, desde o princípio ao fim, para o seu próprio autor, uma pequena historia, uma pequena parcela da grande dor humana, dessa dor de que nenhum livro consegue dar senão uma pálida sugestão". Noutro lugar, referindo-se mais uma vez à grande dor que se abatera sobre ele, considera-a inenarrável, "a ele só contentaria algo que estivesse para além de todos os limites encontrados pelo homem. Ser humano, só humano, perante a dor infinita, era sentir-se complexo, como um deus e insignificante como um grão de pó".

Patética confissão esta, perante uma enorme dor e uma impossibilidade pessoal, de a fazer passar, ao menos, no imaginativo da criação.

Elevada altura moral esta que se ergue, mostrando a falta de talento para realizar o voo nas alturas. Por limites seus. Extraordinária atitude de lucidez e de modéstia.

É, alias, frequente depararmos com esta pureza de auto-análise. Lembro, a propósito, o que se passou com o grande prémio literário "Águia de Ouro", em Nice, (1970), para consagrar um escritor, francês ou estrangeiro, pelo conjunto da sua obra. Ganhou-o Ferreira de Castro e foi-lhe atribuído pela primeira vez que saiu. Pois, na altura de tão significativo acontecimento, um jornalista de "A Capital", numa entrevista que lhe fez, perguntou-lhe:

—  Qual o momento que mais o impressionou após a atribuição deste prémio? Respondeu:" —  Li, num jornal de Nice, que eu, ao chegar aquela cidade, ia "tout ébahi et plein d'émotion". Mas, na realidade, a grande comoção e a imensa surpresa produziram-se dois dias antes, quando tive a imprevista notícia. Então, o prémio e a unanimidade de dezoito escritores (os membros do júri) pareceram-me inverosímeis, ilusório sonho de um longínquo camponês de Ossela, que nunca sonhara tal coisa... mas esta atribuição que centenas de escritores do Mundo mereciam mais do que eu, inclusive meia dúzia de portugueses, apareceu-me como um incentivo, no final da minha vida, a todas as palavras que gostaria de dizer ainda."

Atitudes destas, de facto, só os grandes as sabem assumir.

Entretanto, já que falei em prémio — e um dos mais importantes que o nosso escritor recebeu, é oportuno e justo que refira outros que ainda lhe foram atribuídos. Além deste que acabamos de referir, já para trás falei no que lhe foi atribuído pelo êxito da obra "Emigrantes", o prémio Ricardo Malheiro, instituído pela Academia das Ciências de Lisboa.

O seu romance "A Lã e a Neve" que, como os antecedentes, já havia sido traduzido em francês (e outras línguas, claro), foi, em 1951, seleccionado pelo Club Français du Livre como o melhor romance em língua estrangeira.

Em 1971, a Academia do Mundo Latino, de Paris, atribuiu a Ferreira de Castro, conjuntamente com Jorge Amado, o Prémio da Latinidade, que solenemente foi entregue aos dois escritores de língua portuguesa, numa sessão presidida pelo Ministro dos Assuntos Culturais da França.

Somos pequenos, realmente, perante a grandeza deste homem. só nos engrandecemos, pois, homenageando-o, quando há tantos prémios e honrarias a engrandecê-lo e ao nosso país, de uma forma nunca vista e que tanto nos honra.

Embora lamente não terminar aqui a minha leitura de esta grande obra, peço-vos mais uns minutos de convivência, que desejaria bem não fosse maçadora, para vos falar de uma faceta deste grande Cidadão, se calhar afinal a mais importante em qualquer ser humano: a maneira de estar na vida. Mais do que o fazer — o ser, o estar. Perante tantos êxitos, tantas honrarias, este homem, vindo da pobreza, da luta ingente num mundo de hostilidades e injustiças, atravessando os caminhos da fome dentro da Coragem e da Dignidade, este homem, que chegou a ser um dos mais ilustres e conhecidos dos portugueses deste século, este homem — como esteve ele com a fama, a glória, a aura de imortalidade que, a partir de certa altura, o envolvia? Como esteve ele?

Com a modéstia que já apontámos, com a humildade dentro do sucesso, como já vimos, com a generosidade de um grande humanista, que envolvia todos os homens na mesma fraternidade que damos ao nosso irmão, com os mesmos anseios de liberdade e de justiça que tem todo aquele que passe pela vida como se nela só houvesse caminhos de Dignidade.

Alem das facetas que para trás tentei esboçar, deixem-me pô-lo, por momentos, nas suas próprias palavras, a dizer-nos como esteve na vida. Sucintamente o faço, como é obvio.

Foi-lhe perguntada muita coisa nos encontros-entrevistas. Por exemplo: Aos seus 75 anos, indagaram: "Está satisfeito com a sua obra?" Respondeu: "Quando chego ao fim de um livro, penso sempre que poderia ir mais além". Um homem de modéstia, sempre.

Outra pergunta: "Que gostaria que lhe acontecesse neste momento em que faz 75 anos?" Resposta: "Que me viessem dizer que a injusta sociedade em que o mundo tem vivido se transformara de repente, como que por magia, numa sociedade de justiça para todos os homens e de fraternidade entre todos eles". Nosso irmão, não é verdade?

Outra pergunta: "Quais as palavras que gostaria de pronunciar à hora da morte?" Diz, em resposta, a esperança, quis dizê-la, por certo, a todos nos: "Que morro com a certeza de que o mundo do futuro será muito melhor do que aquele em que eu vivi". Com o coração cheio de amor, por certo, a um jornalista que lhe fez a pergunta: "Tem medo de morrer?" Respondeu: "Não tenho medo de morrer, mas detesto essa lei fatal. É a violência suprema e a mais absurda de todas. Daria, com prazer, a minha vida para que ela cessasse, para que os outros não morressem". Era, pois, capaz da mais generosa dádiva de amor aos outros: a sua própria vida.

Lembremos ainda, num breve apontamento, certas atitudes que tomou e que ficaram na admiração dos seus contemporâneos: recusou algumas condecorações estrangeiras e nunca apresentou a sua candidatura a nenhuma academia. Tomou, em tempos difíceis da ditadura, posições que lhe poderiam ter valido pesadas consequências e que ele assumiu com a maior frontalidade. Apenas alguns exemplos: sofrera, variadíssimas vezes a agressão de proibições da censura; quando, ainda no começo do seu percurso literário, trabalhava no "Século", fora encarregado de fazer uma reportagem sobre as minas de São Domingos, no Alentejo, onde haveria problemas laborais. O resultado de tal trabalho, porém, fora-lhe riscado de alto a baixo pelo lápis da proibição. Houve, de imediato, da parte dele uma resposta de coragem: declarou que nunca mais colaboraria na imprensa portuguesa enquanto houvesse censura. Aliás, já uns anos antes, quando fora eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa, a primeira coisa que fez foi promover um protesto contra a censura. E terminarei estas referências às suas corajosas atitudes de homem livre, lembrando a que será, porventura, a de maior humildade: é convidado em 1958, num amplo movimento de opinião, a apresentar-se como candidato do povo português à Presidência da Republica. E Ferreira de Castro declinou essa honra, argumentando que não tinha aptidões para desempenhar uma actuação política de tão elevado posto. Terei respondido, julgo, à minha pergunta: como esteve ele com a fama e com a gloria?

Mas vamos acompanhar, um pouco mais, o percurso social deste homem admirável. E vamos encontrá-lo sempre solidário e dadivoso com os que precisam. Mal recebe o prémio literário europeu em Nice, lança-se, com o valor pecuniário que também recebe, no projecto que há muito acalentava: fundar, construir e instituir uma biblioteca na sua terra natal. Assim foi feita e nela ficaram todos os livros que possuía. E, depois disso, tanta coisa — tanta coisa que nos deu, pois tudo o que é doado ao Estado passa a ser nosso, a ser de todos nós: foi a doação da casa em que nascera e que lhe pertencia, com todos os seus haveres, à Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis; foi a doação à vila de Sintra, local predilecto, pela sua tranquilidade e pela sua beleza, para escrever a sua ficção, foi a doação a esta vila de todo o seu espólio literário, documental, etc. Foi, até, o próprio túmulo onde repousa, que não está dentro dos limites habituais de um cemitério, com portões a fechá-lo, mas sim no interior da bela paisagem de Sintra, com um banco a seu lado para nele descansarem os que por ali passassem na admiração dos encantos de todos aqueles lugares.

Gostaria muito de ler o que Ferreira de Castro escreveu no documento em que expôs, às entidades competentes, o seu pedido quanto ao local e à forma como desejava ser sepultado. Lerei então, não tudo, mas um pouco do essencial, para que aqueles que porventura não conheçam esse texto fiquem com uma ideia dele.

É datado de 25 de Fevereiro de 1970. Diz: "Nunca pedi nada à minha Pátria, nunca pedi e jamais recebi qualquer favor ou amparo oficial. Hoje, porém, faço-lhe uma solicitação, ao mesmo tempo a primeira e a última: é um pedido lírico, sentimental, e morrerei com a esperança de que "não me será negado. Peço às entidades de Lisboa e Sintra, das quais a anuência dependa, peço às entidades existentes no momento da minha morte ou às que lhe sucedam, se aquelas não me derem deferimento, que autorizem a realização da derradeira vontade que expresso aqui.

Tendo escrito a maior parte da minha obra em Sintra, onde tanto sonhei e trabalhei, eu desejaria ficar ali para sempre, entregue à protecção da sua poesia inesquecível e da sua beleza inefável. Desejaria ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros, sob as velhas árvores românticas que ali residem e tantas vezes contemplei com esta ideia no meu espírito. Ficar perto dos homens, meus irmãos, e mais próximo da Lua e das estrelas, minhas amigas, tendo em frente a terra verde e o mar a perder de vista — o mar e a terra que tanto amei.........Se me for concedido aquele derradeiro lugar, eu desejaria que o meu caixão ficasse colocado dentro dum quadrilongo de cimento, coberto com placas de granito cimentadas e, por cima, uma camada de terra, onde as ervas rasteiras vivessem livremente. Desejaria também que não houvesse nenhum atributo fúnebre, nada que recordasse a morte, mas apenas, ao lado da campa invisível, um bloco de granito cavado em forma de banco, voltado para a vereda, onde pudesse descansar quem por ali subisse ao castelo ou andasse, em erradios passos, comungando com a poesia de Sintra, como milhares de vezes eu andei. Não pretendia nenhuma inscrição. Mas, se alguma for precisa, peço que seja limitada às palavras "Escritor Ferreira de Castro", discretamente gravadas nas costas do banco. Assim não haverá no local qualquer ambiente funerário".

E tudo isto foi feito, felizmente. Lá está, entregue à protecção da beleza inefável de Sintra, perto dos homens e próximo da Lua e das estrelas.

Singular homem este! Amando com tanto carinho a sua Ossela e dela falando, até em palavras escritas, com muita ternura, amando-a tanto que a ela se referira, ao cantinho onde nascera, com a mais envolvente expressão dum sentimento de amor, chamando-a Terra doce... Só os poetas. Só os grandes. Podem ter a simplicidade das maiores sínteses... Não escolher Ossela para nela ficar eternamente não quer dizer que a amasse menos. O que quer dizer e que quis ficar o mais perto possível das estrelas e do mar — e dos homens que, como ele fizera, subissem constantemente aquela vereda de Sonho, para contemplarem a natureza.

Singular homem este, repito. Agora para dizer o quanto, para além de Ossela, tinha no coração, relativamente aos lugares das suas caminhadas. E, estranhamente, ponho aqui um nome, uma terra: Aveiro.

Tempos difíceis. Homens amordaçados. Mas, em Aveiro, ia-se até ao Sonho — ou até à cadeia, mesmo.

Sempre Ferreira de Castro estivera com os que em Aveiro se aproximavam dos seus ideais, dos valores que mais prezava. Não havia, pois, comemoração de carácter cívico e histórico que aqui se fizesse, sem que Ferreira de Castro não fosse convidado a participar. E ele vinha, ele na fraternidade, sempre. Às vezes, porém, não podia, que foi o que aconteceu em 1956, por ocasião das comemorações do 65° aniversário do 31 de Janeiro. Mas não deixou de estar presente, com a bela mensagem que enviou aos seus Amigos. É a ela que vou buscar algumas das mais belas palavras que já foram escritas sobre as gentes e as terras de Aveiro. Vou lê-las, muito feliz, até porque elas, afinal, foram as portadoras da Medalha de Mérito da Liberdade que, pela primeira vez, a nossa terra recebeu. Ei-las, essas palavras:

"Lembro-me ainda do dia, já tão distante, em que apareci, com doze anos apenas, de olhos baixos e gestos curtos, tímido dentro desses fatos de aldeia, que eram sempre mais pequenos do que o corpo, na Praça de José Estêvão, onde nessa época se encontrava o governo civil, para tirar um documento de naturalidade, um elemento de expatriação e de funda saudade pela terra nativa — o meu passaporte.

Sou efectivamente do distrito de Aveiro. Eu não sou bairrista, não sou regionalista, não sou nacionalista; amo Portugal inteiro, a Europa inteira, o Mundo inteiro; amo profundamente o povo do nosso país, mas amo também a Humanidade. Amo o homem pelo facto de ser homem, um ser igual a mim, que sofre das mesmas dores e das mesmas alegrias, dos mesmos desesperos e das mesmas esperanças, que sonha com o amanhã e ao mesmo tempo tem saudades da sua infância, que é simples e complexo e aspira a uma felicidade que não possui; esse ser que tenho encontrado em todas as latitudes, igual, absolutamente igual, nas suas características fundamentais e que eu amo tanto mais quanto mais infeliz ele for.

Não sou nada disso a que me referi há pouco e, contudo, sinto-me contente por haver nascido no distrito de Aveiro. Contente, porque a terra é maravilhosamente bela, duma beleza deslumbrante, variada, jamais repetida, desde as suas montanhas verde-escuras, por onde deslizam múrmuros arroios, aos vales, onde o pão dos homens cresce vizinhando flores, muros floridos de lírios e malmequeres, e daí, através duma gama infinita de cores, até as suas praias douradas, em frente dum mar, onde os portugueses embarcam o seu drama e o sonho duma ventura que não podem ter na pátria.

Mas não é somente pela paisagem, seja ela muito embora, graças ao fenómeno que aludi há pouco, a que mais sinto e amo no Mundo, que estou contente de haver nascido no distrito de Aveiro. Há uma outra razão, uma razão profunda como a própria vida, que se encontra por detrás das formas exteriores dos seres e das coisas. Eu estou contente de haver nascido no distrito de Aveiro, porque o distrito de Aveiro ama a Liberdade. Portugal inteiro ama a Liberdade e não são poucos os sacrifícios que ele lhe tem devotado; mas, entre as regiões que a amam mais fervorosamente, o distrito de Aveiro ocupa sempre um dos primeiros lugares".

Obrigada, Ferreira de Castro.

Aveiro, 30 de Maio de 1998

(In CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FERREIRA DE CASTRO (Catálogo da Exposição Foto-bibliográfica e Documental).  Recolha selecção e montagem dos materiais, Introdução e Notas de Pedro Calheiros. Câmara Municipal de Aveiro, 1998, pp. 41-48.

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