Relembrando Ferreira de Castro

Home Up Next

horizontal rule

Relembrando Ferreira de Castro no centenário do seu nascimento

por Pedro Calheiros

horizontal rule

 

1. O injusto e negligente esquecimento

 

Pena é que seja preciso um pretexto para recordar tão grande vulto da literatura portuguesa e tão exemplar cidadão. Porém, mais vale aproveitar o pretexto do que nada fazer sem ele.

Já em 1985, a pintora Elena Muriel, viúva do insigne escritor lamentava numa entrevista  dada ao Diário de Notícias, publicada num  destacável de cinco páginas, o esquecimento a que tinha sido votada a obra de seu marido. A capa trazia por título: Elena Muriel Não compreendo o silêncio à volta de Ferreira de Castro[1]. Eu também não compreendo, ou melhor não aceito, essa outra morte, mais confrangedora - para nós, entenda-se, porque perdemos, e perdem os eventuais leitores, o benefício incalculável das lições estéticas e morais que nos legou. Tendo Antónia de Sousa, a entrevistadora, perguntado se esse silêncio não teria a ver com o facto de o escritor não ter aderido a nenhum partido, Elena Muriel respondeu-lhe que possivelmente esse seria um dos motivos. Não acrescentou, mas poderia tê-lo feito, que Ferreira de Castro também não abraçara nenhuma religião e que a sua mensagem de esperança foi sempre um constante pugnar pela utopia universal, pela esperança e crença no futuro mais humanizado, mas sem hinos euforizantes, uma utopia distópica -- se me é permitido o neologismo e o aparente paradoxo -- , dado a sua obra ser um espelho constante do seu pessimismo radical, do seu niilismo fundamental, de raiz, sonata melancólica do homem confrontado com o absurdo da existência. Elena Muriel limitou-se a declarar que Ferreira de Castro tinha sido sempre um homem muito independente na maneira de pensar e não deixou de salientar que o escritor estava mais vivo em França do que em Portugal, apesar das repetidas reedições portuguesas da sua obra, da iniciativa editorial do Círculo de Leitores, que se preparava para publicar as obras completas do escritor osselense, e da existência de uma Associação dos Amigos de Ferreira de Castro. No estrangeiro, comentava, continuavam a sair traduções e a Rádio France transmitira uma adaptação de A Lã e a Neve.

Felizmente que nem sempre, nem por todos os lados isso acontece.

Em 1994, por ocasião do XX aniversário da morte do escritor, Sintra, a vila aninhada aos pés da montanha onde escolheu ser enterrado, organizou um colóquio internacional consagrado a "Ferreira de Castro e a contemporaneidade Portuguesa". Antes mesmo de acabar o primeiro ano do seu mandato, bem fez Edite Estrela ocupando-se do património de Sintra, prestando cuidados não só ao património monumental e paisagístico, mas igualmente à herança intelectual.

Há pouco, da emigração, da Venezuela, para onde partiu tanta gente do distrito de Aveiro em busca de melhores condições de vida, também chegou um protesto contra as modas que pretendem votá-lo ao esquecimento ou diminuí-lo. Sérgio Alves Moreira assina esse protesto, num pequeno artigo, no qual explica por que temos de celebrar o centenário do nascimento de Ferreira de Castro, rebelando-se contra o facto de existirem escritores que não lhe chegam aos calcanhares, que luzem como a estrela cadente, que o minuto apaga; e lembra que António José Saraiva, na sua "Breve História da Literatura portuguesa" apresenta Ferreira de Castro como o primeiro escritor sem gravata[2]. Sem querer, este boletim venezuelano deu uma lição ao distrito de Aveiro, ao invocar as razões por que ler Ferreira de Castro e celebrar o seu nascimento, pondo duas vezes em evidência os laços que o prendem à região.

Em 1970, o Arquivo do Distrito de Aveiro, publicou uma extensa reportagem, assinada por José Tavares, <<orador oficial da sessão>> de "Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro", na qual leu largos excertos inéditos de Criminoso por Ambição e reproduziu a intervenção do escritor no salão nobre da Câmara Municipal, na qual estiveram em lugar de destaque Mário Sacramento e João Sarabando, sessão essa que se seguiu à inauguração da estátua do Emigrante, monumento a Ferreira de Castro, a Manuel da Bouça e a todos os que com eles partilharam e haveriam de partilhar a sorte madrasta[3].

Dois anos depois, em 1972, portanto, Aveiro E O Seu Distrito publicava o trabalho de João da Silva Correia intitulado "Antologia Aveirense Ferreira de Castro (das suas recordações de menino e moço)[4].

Bem age o Grupo Poético de Aveiro ao organizar uma série de conferências sobre o escritor, integrada na Feira do Livro da cidade, e ao publicá-las no número da sua revista, Folhas 3, que será lançada ainda durante a Feira. A Câmara Municipal de Aveiro não quis deixar de se associar à celebração do centenário, por um lado acolhendo as conferências no programa da Feira do Livro e, por outro, organizando a exposição bibliográfica e documental a que este texto serve de introdução. Esperemos que estes actos tenham continuidade - que o ano do centenário tem 365 dias - e Ferreira de Castro merece muito mais;  quero dizer, os aveirenses merecem muito mais que estas modestas, modestíssimas iniciativas; se as compararmos com outras que Aveiro já consagrou, nos tempos difíceis da ditadura, ao notável escritor do seu distrito e ao defensor  incansável das liberdades banidas, o que agora se oferece é indiscutivelmente bem pouco.

Há quem não perdoe a Ferreira de Castro por ter doado o seu espólio a Sintra, esquecendo-se ou fingindo esquecer-se que o escritor nunca olvidou  a sua terra e região natais e que delas sempre falou com o maior carinho. A Ossela, além de sua casa natal, com o seu saudoso recheio e o manuscrito de sua monumental obra As Maravilhas Artísticas do Mundo, deixou a sua livraria, com cerca de 6.OOO livros, alguns quadros e outros objectos, construindo para a acolher uma Biblioteca, paga com os dois grandes prémios que lhe foram concedidos em França: em 1970, o Grande Prémio Internacional Águia de Ouro, do Festival do Livro de Nice, ganho por unanimidade e atribuído pela primeira vez por  um júri presidido por Isaac Singer, que viria a ser prémio Nobel, e do qual fazia já parte um prémio Nobel, Miguel Angel Asturias, Armand Lanoux e Hervé Bazin, da Academia Goncourt, Alba de Cespedes, Gore Vidal, Paço d'Arcos, o único membro lusófono do júri, etc.( assinale-se que entre os outros autores propostos figurava o nome de Lawrence Durell, Key Boyle e Constatin Simonov, o que realça ainda mais o valor do galardão que Ferreira de Castro recebeu)[5]; em 1971, ano em que ele próprio presidiu o júri de atribuição do prémio do Festival, foi-lhe outorgado pela Academia do Mundo Latino, de Paris, o Prémio da Latinidade, ganho conjuntamente com Jorge Amado.

Por amabilidade do coleccionador aveirense Senhor Fausto Ferreira, figura nesta exposição o rascunho da carta [6]dada a dactilografar a seu sobrinho Zeca, carta que iria ser enviada ao Presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis, pedindo ao Município que aceitasse a doação que Ferreira de Castro pretendia fazer da Biblioteca que mandara construir para abrigar a sua livraria pessoal e estipulando algumas condições. Ferreira de Castro lembra nessa carta a sua adolescência, quando tinha uma grande sede de cultura e nenhuns recursos materiais para adquirir livros, tendo-lhe sido imensamente útil [7] a Biblioteca Pública de Belém do Pará. Mais tarde, pensando que outros poderiam vir a encontrar-se nas mesmas dificuldades em que e(le) (s)e encontrara então, torn(ou-se), tanto quanto possível, um fornecedor de bibliotecas (p.1-2). Quando recebeu os prémios literários franceses, Ferreira de Castro decidi(u ) imediatamente, decidi(u) romanticamente pois não (era) rico, edificar uma biblioteca em Ossela, ao seu povo destinada (p.3). Estando ela pronta, o escritor pretendia pô-la ao serviço dos habitantes de Ossela e Cambra e de outras localidades a quem ela pudesse eventualmente ser útil (p. 5).

Estabelece quatro condições, palavra esta pela qual não tem aliás nenhuma simpatia (p. 7), sendo a primeira a de que não devem ser retirados da Biblioteca, para fora da freguesia de Ossela , nenhum dos livros, quadros e outros objectos que nela se encontram e estão indicados no catalogo e no inventário que anexava à carta (p.5-6); a segunda estipula que os livros expostos no primeiro andar não devem ser retirados das respectivas estantes (p. 6); a terceira impõe que a Biblioteca será aberta ao público logo que estejam concluídas as formalidades da doação (p. 8); a Quarta, e última, é mais uma promessa de novas generosidades do que uma condição: - E reservo para mim, enquanto viva, e para minha mulher e minha filha, depois de eu morrer, o direito de continuarmos a contribuir com objectos para a Biblioteca (p. 8-9). Ferreira de Castro acrescenta duas sugestões de funcionamento:

Por outro lado, sugiro que ela funcione, inicialmente, aos sábados e aos domingos e, posteriormente também noutros dias, se a Câmara Municipal verificar que o número de leitores o justifica.

Constituindo o primeiro andar da Biblioteca e a casa em que nasci como que um todo em relação à minha vida, sugiro igualmente que os dois devem ser confiados ao cuidado da mesma pessoa encarregada pela Câmara de zelar pela referida casa e de mostrá-los aos visitantes (p. 10-11).

Além destas preocupações sérias, graves e bondosas para com a sua terra natal - querendo dar à sua terra e região, ao país e à Humanidade os melhores manjares do espírito - , além ainda daquelas que vamos mais adiante referir, de alto significado político e humano, Ferreira de Castro também se interessava pelos prazeres que o rincão que lhe serviu de berço podia proporcionar. A obra ilustra abundantemente o seu carinho, o seu amor epidérmico pela paisagem e pelas gentes da Beira Litoral, mas também não desprezava as iguarias da região, as delícias da terra e do mar. No In Memoriam de Ferreira de Castro, Assis Esperança, o mais íntimo dos amigos do autor de <<A Selva>>, como o qualifica Manuela de Azevedo que recolheu as suas confidências, lembra os almoços que mensalmente faziam, com o João de Barros, o Arlindo Vicente , o Roberto Nobre <<fora de portas>>, até Aveiro, à pesca de enguias ( sou eu que sublinho esta pesca no prato na cidade da Ria), ou em Bucelas, no <<Caçador>>, do Raimundo Alves, que foi deputado na I República..[8].

Segundo me contou a Drª. Cecília Sacramento, que soubera da predilecção de Ferreira de Castro por carapaus fritos, quando o escritor a visitava já depois da morte de seu marido, servia-lhe esse prato popular com o qual ele se regalava.

 

2. A amizade e cumplicidade com Mário Sacramento.

 

Pode ver-se na exposição uma série de documentos ilustrando os laços que o escritor sempre manteve com a cidade, a começar pela nobre e belíssima defesa que Ferreira de Castro aceitou fazer de Mário Sacramento no Tribunal do Porto, em 22 de Fevereiro de 1957, aí declarando que considerava o Dr. Mário Sacramento um dos grandes valores da nossa terra, um dos portugueses mais dotados do (seu) tempo, pelo seu talento, pelo seu carácter, pela sua bondade e amor ao seu semelhante, acrescentando que homens como o Dr. Mário Sacramento constituem a melhor riqueza dum país e que é graças a eles, às suas qualidades morais e intelectuais, que se eleva o nível dos povos e se faz a sua verdadeira glória[9]. A propósito, permitam-me, pelo que afirma Ferreira de Castro e por muitas outras razões que não acabe aqui explicitar, dizer que mal seria se Aveiro - a única cidade, até agora, muito recente e justamente distinguida com a Ordem da Liberdade - esquecesse, no próximo ano, a passagem do trigésimo aniversário da morte de tão valorosa figura. Porque ele pode servir muitíssimo ainda, e nunca perderá actualidade, não resisto a repercutir o resto do depoimento de Ferreira de Castro, quando quis proclamar que o Dr. Mário Sacramento, como todos os outros homens, deviam ter o pleno direito de exprimir as suas opiniões, quaisquer que sejam, referindo o comportamento de um velho juiz americano, que ele considerava, entre todos os muitos actos notáveis da magistratura, um dos que mais admirar(a). Esse juiz condenara a repetir cem vezes perante o tribunal e a vítima, uma frase célebre de Voltaire,  um certo homem que agredira outro após uma discussão de ideias; Ferreira de Castro citava de cor essa frase nestes termos: <<Discordo e detesto tudo quanto me dizes: mas para teres o direito de me dizer tudo isso de que discordo e detesto eu daria a minha própria vida.>>[10]

Que lição dava aos juizes que estavam a julgar Mário Sacramento!

Está patente na exposição e é aqui, pela primeira vez, publicada a carta, datada de 10 de Fevereiro de 1957, que Ferreira de Castro enviou a Mário Sacramento , aceitando o pedido formulado pelo perseguido aveirense para lhe enviar  um depoimento em sua defesa para o Tribunal onde ia ser julgado, e na qual o ilustre escritor lhe solicitava que dissesse ao seu advogado para lhe enviar as normas que teria que respeitar e os pontos que deveria salientar, sugerindo que lhe fosse remetida também a cópia dum outro depoimento para lhe servir de exemplo. Pode ver-se igualmente o cartão de Ferreira de Castro que acompanhava o envio da declaração, com o carimbo dos Correios datado do mesmo dia em que assinou o depoimento.

Figura também aqui a carta autógrafa  de Ferreira de Castro, de 21 de Setembro de 1957, regozijando-se com a notícia da realização de um congresso republicano em Aveiro e explicando que o seu trabalho naquela altura e a sua saúde bastante precária não lhe permitiam escrever a tese que lhe tinha sido pedida, mas que enviava uma entrevista sobre a censura, que tinha dado ao Diário de Lisboa, em 1945, assim como uma mensagem sua enviada a uma reunião na "Voz do Operário", onde também examinara a situação do nosso pensamento algemado, autorizando a sua leitura, pois o que tinha escrito continuava válido, declarava, acrescentando que não tinha que lhe alterar uma só vírgula. Terminava dirigindo saudações aos congressistas e reiterando a sua fé na liberdade, no progresso humano e na justiça dos dias vindoiros[11].

Dá-se igualmente a ver um cartão de Ferreira de Castro, no qual ele agradece a Mário Sacramento a bela peça literária que o ensaísta escrevera sobre ele no Litoral, dizendo ainda que considerava o nosso crítico um verdadeiro escritor.

Numa outra carta, datada de 14 de Maio de 1968, Ferreira de Castro agradece uma prova de amizade que recebera de Mário Sacramento e na qual se diz reconhecido pelo apoio recebido, bem como pelas declarações que o crítico enviara ao Comércio do Funchal.

Por ocasião da homenagem a Mário Sacramento, organizada por uma Comissão de Democratas Aveirenses, na altura da passagem do primeiro aniversário da morte do ensaísta, Ferreira de Castro aceitou presidir a sessão efectuada no Teatro Aveirense, na qual discursou Óscar Lopes, de quem o escritor fez uma calorosa apresentação; sobre o homenageado, um homem exemplar, como intitulou a sua curta intervenção, disse Ferreira de Castro que ele é uma figura que simboliza os mais profundos valores humanos; concluiu a sua introdução afirmando que, através do que iam ouvir a Óscar Lopes, iam  de novo conviver com Mário Sacramento, que tanto honrou Aveiro, que tanto honrou Portugal e tão persistentemente serviu a Humanidade, sem uma quebra, sem um só desvio, sem uma só incoerência[12].

É de desejar que em Aveiro, terra dos Congressos Democráticos, se leia e releia e medite, para que a memória não esmoreça, sobretudo neste ano do 25º aniversário dessas honradas assembleias, coincidindo com o centenário do escritor de maior nomeada internacional que no seu distrito nasceu, e onde sempre voltava para se refugiar no seio saudoso da infância e da adolescência muito cedo acabadas, ou para apoiar ou compartilhar as lutas pela democracia e por uma sociedade mais justa, é de desejar, escrevia eu, que os aveirenses se debrucem com o maior reconhecimento sobre textos como aquele que Ferreira de Castro enviou aos Democratas de Aveiro, não podendo estar presente, declarando-se orgulhoso de ser conterrâneo dos promotores das Comemorações do 65º. Aniversário do 31 de Janeiro, em 1956. O escritor lembra a sua primeira passagem pela cidade, aos doze anos, para tirar o seu passaporte para o inferno verde da Amazónia. Apesar de pensar que ao homem interessa mais saber para onde vai do que de onde vem - na vida, na política, na evolução social e no progresso, porque, como explica, para o ser humano o que conta é o fim e não o princípio, pois pode-se eleger um sítio para morrer, mas é - nos vedado escolhê-lo para nascer; apesar de Ferreira de Castro se declarar um nómada, diz que a terra em que nascemos, bela ou horrenda, viçosa e colorida como uma horta pegada a um jardim ou árida e monótona como um deserto, é, assevera o escritor  osselense, sempre para nós a de maior encanto, aquela por cujo padrão havemos de amar ou de menosprezar as paisagens do futuro. Se bem que Ferreira de Castro escreva com a maior clareza que não é bairrista, nem regionalista, nem nacionalista, pois ama Portugal inteiro, a Europa inteira, o Mundo inteiro, amando profundamente o povo do nosso país, amando porém igualmente toda a Humanidade, o escritor acaba por confessar que se sente contente por  haver nascido no distrito de Aveiro ( sou eu que sublinho), não só pela beleza da sua paisagem, a que mais s(ente) e am(a) no Mundo; Ferreira de Castro, repetindo que se sente contente por ter nascido no distrito de Aveiro, dá para isso uma outra razão, uma razão profunda como a própria vida, assim formulada: Eu estou contente de haver nascido no distrito de Aveiro, porque o distrito de Aveiro ama a Liberdade[13].

Saboreie-se igualmente a mensagem que enviou, por se encontrar ausente de Portugal, ao II Congresso Republicano de Aveiro, na qual enaltece a iniciativa, pelos problemas que vai estudar e pelo carácter nacional, partindo do nosso distrito de Aveiro, que é um dos grandes símbolos da Liberdade (sou eu que mais uma vez sublinho a ligação afectiva que Ferreira de Castro estabelece com o seu distrito). No último parágrafo, o escritor voltando a referir-se à nossa Aveiro, conclui a sua mensagem explicitando o seu desejo de ver a Humanidade redimida de todas as injustiças - um mundo justo e fraternal para todos, todos os homens![14]

Veja-se ainda a profundíssima Mensagem, que deveria ser comentada e ensinada nas escolas como se fora um catecismo, ou um breviário, pois nela Ferreira de Castro tece considerações de alta filosofia política, comprometida e generosa, lida na sessão de 30 de Novembro de 1946, organizada pelo Movimento de Unidade Democrática[15]. Sem esquecer a de 1949, aproveitando a simples hipótese de Liberdade que então se apresentara como uma espécie de aleluia na alma dos portugueses[16].

Por ocasião da celebração do "Meio Século de Presença Literária" de Ferreira de Castro, o Litoral consagrou quase toda a edição à efeméride. Na primeira página, inteiramente dedicada ao acontecimento, além de um artigo de João Sarabando sobre "O distrito de Aveiro na obra de um escritor universal", de um artigo do Dr. José Pereira Tavares, intitulado <<Um Grande escritor!>>, e encimando um retrato de meia página do escritor, podia ler-se uma comovente e comovida espécie de carta aberta "A Ferreira de Castro", assinada por Mário Sacramento, na qual o ensaísta escreve que receber um homem como Ferreira de Castro desenxovalha o coração do sarro em que dia a dia vêm sepultá-lo. Dizendo que o seu Amigo não vem inaugurar o chafariz da praça,  e assinalando que o escritor inaugurou meio século de literatura social - no Brasil e em Portugal, Mário Sacramento lembra que passaram cinco décadas de ideário vivido e literariamente recriado, não só pelo escritor osselense, mas por gerações inteiras que se lhe têm seguido. O notável crítico faz nestes termos o balanço superlativo da produção literária de Ferreira de Castro: A sua obra fecha um ciclo que a Peregrinação do Fernão Mendes Pinto abrira. E inicia outro que nossos filhos verão cumprir-se. Ao optimismo expansivo do Mentes Minto, os Emigrantes opuseram a reflexão pungente que a abordagem do real hoje suscita. À ascensão, a depressão. Aos damascos, a lã ancestral dos tosquiadores de Viriato[17].

A mesma edição desse jornal dava uma extensa notícia sobre "O Preito do Rotary Distrital", relatando as comemorações organizadas pelos Clubes Rotários de S. João da Madeira, Ovar, Estarreja e Aveiro; referindo pormenorizadamente as conferências pronunciadas no salão do Grémio do Comércio e citando passagens das intervenções dos vários oradores, entre outras as do escritor brasileiro Olavo Dantas, Álvaro Salema ou Hernâni Cidade. O jornal faz também a reportagem das cerimónias em Ossela, das quais me é grato salientar a distribuição de livros do grande escritor, por ele autografados, às crianças que completaram o curso de instrução primária - oferecidos pelos clubes rotários - e a todos os alunos das escolas locais um pequeno prato com o seu retrato, e a assinatura em <<facsimile>>, mandado propositadamente executar pelos srs. Gervásio e Carlos Aleluia.[18] Pertencente à  Drª. Cecília Sacramento, que nos facultou a sua exibição, temos patente numa das vitrinas da exposição um desses pratos.

Da mesma colecção mostram-se alguns exemplares de obras de Ferreira de Castro com significativas dedicatórias ao amigo aveirense, como aquela particularmente reveladora da estima e do apreço que o escritor tinha por Mário Sacramento, que está, como ele escreve na dedicatória de O Instinto Supremo, no mais alto nível da intelectualidade portuguesa; este exemplar está aqui e ali sublinhado pelo crítico e contém uma anotação que não resisto à tentação de reproduzir. Tentando convencer  os recalcitrantes Parintintins a deixar-se civilizar, Garcia pede ao índio Mangori, que serve de intérprete, para dizer ao velho chefe da tribo que ele próprio, o tradutor , também é índio e que já está civilizado. Mário Sacramento interroga à margem : E o branco ... quando?[19].

 

3. Cartas para Urbano Tavares Rodrigues

 

Nas vitrinas da exposição mostram-se seis cartas, inéditas, que Ferreira de Castro escreveu a Urbano Tavares Rodrigues, que por sinal, também a Aveiro está de certa maneira ligado, por ter feito parte dos corajosos que nos Congressos Democráticos de Aveiro participaram. Pela gentil e imediata anuência do escritor estão elas aqui presentes e aparecem retranscritas neste singelo catálogo.

Na primeira, enviada de Lisboa, em 10 de Dezembro de 1958, Ferreira de Castro agradece ao destinatário o envio da sua antologia alentejana, dizendo-lhe que está excelentemente organizada e pedindo a Urbano Tavares Rodrigues para não se preocupar com o facto dele não figurar nela, pois o nosso escritor compreendia perfeitamente o que se passou, pois ninguém se lembra, escreve Ferreira de Castro, - e eu próprio às vezes me esqueço - que tenho duas ou três fugidias páginas sobre o Alentejo.

Na segunda, expedida de Lisboa também, a 7 de Junho de 1962, Ferreira de Castro explica que só recentemente pudera ler o último romance de Urbano Tavares Rodrigues, por ter estado doente e ter sido operado, mas que por essa razão ele tinha sido o seu companheiro de convalescença, além dum melro generoso que, de manhã e de tarde, canta(va) nas árvores do parque Eduardo VII, mesmo em frente da (sua) janela. Ferreira de Castro escreve que Exílio Perturbado lhe pareceu, antes de tudo, <<une tranche de vie>> ou mesmo <<plusieurs tranches>> admiravelmente ( como de costume, o advérbio ocupa toda a linha da página) examinadas e narradas. O autor de A Selva diz a Urbano Tavares Rodrigues que as suas 300 páginas atestam excelentemente (mais um advérbio deitado na linha inteira) a mestria do seu autor em fazer(?) a vida - viver. Viver simultaneamente (aqui o advérbio além de ocupar uma linha completa, ainda pula para a seguinte) nas superfícies e nas profundezas.

A terceira foi igualmente enviada de Lisboa, a 23 de Maio de 1964, louvando o grande talento do destinatário e as páginas veementemente inquietas, tão ricas de expressões no campo humano, como no campo estético, cuja recepção agradece. Ferreira de Castro evoca a força irresistível da prosa de Urbano Tavares Rodrigues, que vai ao encontro de imprevistos problemas.

Na quarta, escrita nas Caldas da Taipa, a 19 de Setembro de 1965, agradece o envio do novo livro, Dias Lamacentos, que acabara de ler, e assegura-lhe que o escritor dos belos ritmos, da luminosidade, das cores e do paganismo do nosso planeta, acentua aqui, clara e nobremente, a sua discordância com o mundo injusto em que vivemos. A esta atitude do intelectual, acrescenta Ferreira de Castro, que se volve para as vicissitudes de tantos dos seus semelhantes, junta-se uma arte magnifica, que desde há muito admir(a) nele. No parágrafo seguinte pode ler-se esta apreciação encomiástica dos dois primeiros textos do livro: As duas primeiras novelas são excelentes. Quem esquecerá o Alentejo da primeira e a figura da segunda, principalmente a fina sensibilidade com que V. impregnou essas páginas do melhor recorte psicológico e literário?

Mostrando-se um leitor muito atento, Ferreira de Castro formula este senão: Se eu tivesse de fazer alguma reserva, sê-lo-ia para a terceira novela, na qual me parece que o tom do diálogo, um diálogo talvez demasiado solto, embora deliberado, não coopera suficientemente (mais um advérbio de linha inteira) com a originalidade da ideia e da composição. Mas quem foi que já escreveu um volume de novelas, ou de contos, todos ao mesmo nível e sem lugar algum para uma observação? Você não conhece esse autor, nem eu também. Se me refiro ao caso, é apenas para que V. saiba que o li atentamente. Esse meu ponto de vista não tem, pois, importância alguma perante tão belo livro - e a prová-lo está o conto final, que é também magnífico.

Ferreira de Castro envia então as suas vivas felicitações a Urbano Tavares Rodrigues, indicando-lhe que tem estado nas Caldas da Taipa, com uma saúde bastante má; informando que vai  no dia seguinte para a Pensão Suissa, em Macieira de Cambra, convida o colega e amigo lisboeta a almoçar ou jantar com ele, se ele passar por estas bandas até 5 de Outubro,  o que lhe daria uma enorme alegria. Ferreira de Castro não termina a sua carta sem mandar muitos cumprimentos a Maria Judite de Carvalho, que ele muito admirava, tendo estado presente, como se pode ver por uma fotografia (amavelmente emprestada por Urbano Tavares Rodrigues) para esta exposição, na entrega do Prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1961, pela publicação de As Palavras Poupadas.

Na quinta carta, escrita de Lisboa, a 9 de Novembro de 1967, Ferreira de Castro revela o seu pouco gosto pelos guiões de filmes, a propósito do livro receado de Urbano Tavares Rodrigues, Despedidas de Verão, e tece considerações sobre a sua concepção desse género de textos, que vale a pena ler na íntegra, pelo que elas revelam da alta conta que faz do trabalho dos escritores e das responsabilidades literárias que assumem e da imagem que têm que construir e defender:

Meu caro Urbano:

Ao saber que se tratava dum argumento cinematográfico, entrei nas suas <<Despedidas de Verão>> com reservas. Mereceria um mero esquema de ambientes , e de acção ser publicado por um escritor com as responsabilidades que Você desde há muito tem?

Mas logo no prefácio você me respondeu com magníficas páginas para ler e reler, saboreadamente.

Depois veio o texto receado . E, afinal, não era assim tão sintético como eu admitira. O artista que você é vestiu com esplendor quente da sua prosa a clássica e fria nudez do argumentista; o esqueleto envolvera-se em carnes capitosas, dele só se notando, aqui e além, esses ossos que habitualmente se desenham sob a pele. E assim você fez uma novela cheia de interesse, que em nada afronta a sua bibliografia, antes nos mostra mais uma das muitas possibilidades do seu talento.

Um grande abraço do velho amigo e admirador

Ferreira de Castro

A sexta e última carta visível na exposição também foi enviada de Lisboa, a 5 de Março de 1971; nela Ferreira de Castro agradece a oferta de Deserto com vozes, que acaba de ler. As considerações sobre o livro de Urbano Tavares Rodrigues são extremamente calorosas, como se pode constatar  logo no segundo parágrafo:

Nele cintilam, como nos seus outros volumes do género, muitas pequeninas jóias literárias, tão belas que quem não conhece a sua vida pode, por ventura, julgar que elas não foram escritas a correr e sim pacientemente elaboradas, com destino à posteridade e não à existência apenas de um dia nos jornais.

Ferreira de Castro tece depois algumas considerações sobre o género, com o qual se identifica por  já ter sido obrigado a viver dele, assinalando diferenças com a escrita diarística que lhe merece mais reservas:

Não é a primeira vez que os eus livros de crónicas me levam a establecer um paralelo com os diários de alguns famosos escritores: Você reúne em volumes, à margem da sua grande obra de ficcionista, as colaborações que mantém quotidianamente (longo é o advérbio, desfiado em toda a linha) na Imprensa, para ganhar o pão necessário. (Que longa e dolorosa experiência eu próprio tenho disso!). Eles, ao contrário, fixam os acontecimentos íntimos ou exteriores das suas vidas com o intuito, aliás bem humano e compreensível, de entregar à posteridade as horas que viveram ou de desabafar com este este(sic) excelente companheiro e intermediário que é o papel em branco, que aceita passiva e humildemente todas as ideias e sentimentos e que muitas vezes até parece colaborar connosco, associar-se à nossa euforia ou à nossa depressão, quando lhas transmitimos.

Ferreira de Castro volta a referir o livro de Urbano Tavares Rodrigues para o enaltecer por comparação com os diários, que ele acha muito narcisistas: Deste apressado confronto ressaltam muitas diferenças a seu favor. Um diário, por muito belo e profundo que seja - e há-os verdadeiramente admiráveis - é uma obra quase sempre egocêntrica, geralmente escrita com a pena de Narciso. Oferece-nos, por via de regra com retoques discretos, o retrato psíquico dum homem, ao passo que Você, sem deixar de ser Você, é multitudinário e brinda-nos com o panorama da Humanidade. E é também muito mais variado e colorido do que os diaristas, entregues pela força do próprio género, aos cinzentos e aos claros-escuros, às <<nuances>> das meias-tintas.

Ferreira de Castro continua a salientar as qualidades das crónicas de Urbano Tavares Rodrigues nestes termos altamente encomiásticos: Há ainda outros contrastes e um deles avulta muito: os seus livros são mais selectos do que a maioria dos diários. Você procede à monda tempos depois da febre criadora, quando o espírito já está mais frio, mais crítico em relação aos trabalhos passados.

O autor de Emigrantes e de A Selva aproveitou o ensejo para confiar a Urbano Tavares Rodrigues, e à posteridade indirectamente, a pouca estima que tem por esse género , explicando, por ventura, por que não escreveu nenhum diário, chegando mesmo a salientar alguns aspectos negativos dos diários de Gide: Os diaristas, além da obsessão, que muitos têm, de não deixar nenhum dia em branco, sofrem se a sua própria intuição lhes aconselha a cortarem as passagens inúteis. Pois que se trata duma obra de corpo e alma inteiros, suprimir-lhe os dias sem interesse é como encurtar-lhes a vida, minimizar a sua história, atentar contra a verdade do indivíduo e do tempo; é como se lhes amputassem um músculo ou lhes retirassem uma víscera. Dá pena ver certas obras do género, o Journal de André Gide, por exemplo, tão importante e corajoso, sobrecarregados de trechos inteiramente supérfluos e mesmo pueris. Ora os seus diários, caro Urbano, estão isentos de tal pecha.

Sente-se que a leitura de Deserto com Vozes inspirou Ferreira de Castro, pois ele acaba a carta, escrita ao correr de pena, parece mesmo que sem atenta releitura, não por nada mais ter a acrescentar, mas por ter começado a anoitecer e ele andar com uma grave doença na vista. O autor de Eternidade termina a sua carta apresentando muitas felicitações a Urbano Tavares Rodrigues e com, um grande abraço, diz-se mais uma vez seu velho amigo e admirador.

Da exposição, igualmente graças à extrema generosidade do autor de Exílio Perturbado, fazem parte algumas fotografias de Ferreira de Castro; que me seja permitido assinalar aquela que é provavelmente a última em que podemos ver juntos os dois escritores, e uma das derradeiras do criador osselense, que brevemente iria falecer, tirada por Abel Fonseca em Lisboa, em 1974, à mesa de um restaurante, na qual nada anuncia o fim próximo do homem que a tantos países levou a presença da literatura portuguesa.

 

4. Rematando sem acabar...

 

Voltando ai silêncio a que foi votado aquele que foi o escritor português mais lido no seu país e no mundo, o mais laureado, justamente recompensado pela sua extraordinária odisseia como homem e como escritor, apraz-me perguntar: Será que alguém tem medo de Ferreira de Castro? Os nazis alemães bem proibiram a continuação da publicação das suas obras, só retomada depois do fim da guerra. O lápis azul da censura fascista portuguesa deu enormes dores de cabeça ao escritor, cortando estupidamente muitas das suas páginas e deixando passar outras, permitindo, ou melhor, não ousando calar a sua voz, em certos momentos menos propícios para os alfaiates literários do regime, estilistas - já se vê, como se diz hoje em dia em calão americano, sobretudo porque o público atingido pelo livro não era tão numeroso como aquele que a imprensa tocava; se bem que no caso de Ferreira de Castro, as tiragens excepcionais e as audiências nacionais e internacionais conseguidas encurtassem muitíssimo essa distância que, em primeira análise, se poderia imaginar.

Graças a essa hidra dos regimes ditatoriais e à auto-censura que ela inevitavelmente engendra - bem mais mortífera , por vezes, do que a besta apocalíptica que a liberdade destrói - Ferreira de Castro deixou no limbo a série romanesca Biografia do século XX, morta no berço pelo peso esmagador da censura, e ainda mais pela auto-castração imposta pela auto-censura, que Ferreira de Castro, faz rimar com auto-tortura[20], suma na qual pretendia esboçar a epopeia de todas as correntes proletárias, sem excepção alguma[21].

Alberto João Jardim - mas não é de admirar - lá sabe porque proibiu no Portugal democrático (mas não é democrático em todos os lugares!) as filmagens de A Eternidade, como revela Elena Muriel na entrevista já citada, lamentando tanto mais essa decisão do dono da Madeira, quanto ela considera ser esse o livro mais espiritual[22] de Ferreira de Castro, obra que fez com que ela por ele se apaixonasse.

Por Aveiro passou bem cedo, para o melhor e para o pior, com doze anos apenas, em 2 de Dezembro de 1910, pela então denominada Praça José Estevão, Ferreira de Castro, para tirar o passaporte para o inferno de que ele soube sair para um purgatório assombrado pelas injustiças sociais, pelas fatalidades biológicas, pelas liberdades sufocadas, à espera de que o erguêssemos ao céu da Glória a que tem direito, quem tanto sofreu e lutou, na maior solidão, deserdado da fortuna, mas não da coragem exemplar e sem tréguas até ao limiar do poiso romântico, espiritual, numa das veredas de acesso ao Castelo dos Mouros em Sintra. Esse passaporte foi passado ainda, curiosa e significativamente, em papel timbrado do Reino de Portugal, corrigido à mão para República de Portugal, como se pode ver nesta exposição.

Homem modelar, poderia e deveria servir de espelho a gerações rascas ou não, mas que uma certa pestilência ambiental conduz a essa desoladora posição, num tempo em que se vitoriam quase exclusivamente os atiradores do futebol e suas cortes, seus negócios e violências, os políticos lançadores de foguetes em seu próprio louvor, os estilistas dos trapos, os génios da BD, os leitores, ou talvez  nem isso, das Selecções do Reader's Digest, para não falar da Caras e quejandas, dos apreciadores de fast food, dos não frequentadores das bibliotecas virtualmente virtuais, tão virtuosas que muitos dos seus atractivos morrem virgens, para não me deter sobre os arregimentados prontos, não se sabe bem para quê, se nem contínuos são nas escolas (onde o facilitismo conduziu ao resultado lastimoso que sabemos e que alguns deploram), nem magalas analfabetos nas paradas dos quartéis (refiro-me obviamente às muletas omnipresentes na linguagem de muito boa gente que não devia falar tão claudicantemente). Que me perdoem este desabafo que poderá parecer passadista e retrógrado, mas ele só na aparência assim poderá ser entendido, pois não ponho em causa nenhuma destas actividades humanas, nas suas melhores vertentes, mas a inversão de valores que as acompanham , a sua sobrevalorização e a apatia intelectual que têm provocado; se isto, sem prazer nenhum escrevo, é por muito melancolicamente pensar no futuro e por, à semelhança do notável escritor, ter esperanças voluntaristas, mas sem ilusões, por entender que Ferreira de Castro poderia servir de antídoto contra muitos dos actuais e omnipresentes anestesiantes, quer sejam políticos, financeiros ou mediáticos. Ferreira de Castro queria ler e não tinha dinheiro para livros; outros jovens têm-no, talvez em demasia, e não podem ver livros sem enfado ou sono, quando não ostensivo desprezo. Nesta era de consumismo desenfreado, do ser preterido em favor do parecer e do ter e do estar, de gorda despolitização, de magro civismo, de fracos escrúpulos, de esquelética moral, que inculca na juventude, e não só, o gosto alienado pela sociedade do espectáculo, pelo sensacionalismo, pela brutalidade, pelo narcisismo, pela frivolidade, pela leveza, pelo cálculo egoísta, pelo carreirismo maquiavélico, num tempo em que parece haver muito pouco por que lutar, por estar para muitos garantido o essencial , neste tempo e neste país, ler a obra e conhecer a vida de Ferreira de Castro talvez não fosse só ociosa ocupação. A carapuça não serve evidentemente para todas as cabeças, mas numerosas demais aquelas que a podem enfiar.

Decididamente eu não tenho jeito nenhum para discursos edificantes. Imperfeito texto - em todos os sentidos, incluindo o manuelino- onde me levaste!

  Aveiro, 10 de Maio de 1998.


horizontal rule

[1] Elena Muriel, "Não compreendo o silêncio à volta de Ferreira de Castro", in Diário de Notícias, 11-8-1985, Destacável - Entrevista, p. 29-33

[2] S.A.M., "Centenário de Ferreira de Castro Romancista da Emigração", in Portugal Boletim Informativo de Artes e Letras, Caracas, Fundação Instituto Português de Cultura, p. 5.

[3] José Tavares, "Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro", in Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XXXVI, Aveiro, 1970, p. 8-28.

[4] João da Silva Correia, "Antologia Aveirense Ferreira de Castro (das suas recordações de menino e moço), in Aveiro E O Seu Distrito, nº. 13, 1972, Publicação da Junta Distrital de Aveiro, p. 13-17.

[5] Ver, por exemplo, a entrevista concedida, nessa ocasião ao suplemento "Literatura e Arte" de A Capital,  de 24 de Junho de 1970, intitulada "Ferreira de Castro:<<Com o dinheiro do Prémio vou instituir uma Biblioteca na minha terra natal>>".

[6]  A carta está datada, por lapso do escritor,  de 29 de Setembro de 1975; deve ser de 1973, pois nessa data já o escritor tinha falecido, provavelmente por congestão de liberdade, como alguém lembrou.

[7] Ferreira de Castro escreveu util,, não dando grande atenção às regras de acentuação das palavras, como, de resto, isso é bastante frequente nas suas páginas, mesmo no que diz respeito aos nomes próprios; por exemplo, nunca acentua o nome natalício de Mário Sacramento; para não sobrecarregar o texto com repetições fastidiosas da palavra sic , decidi, dado isso ser irrelevante neste contexto, e por não se tratar aqui da publicação crítica da correspondência do escritor, não o assinalar nunca, bem como prescindi também, pelas mesmas razões, das variantes riscadas.

[8] Manuela de Azevedo, "Meio Século de Convívio na Evocação de Assis Esperança", In Memoriam de Ferreira de Castro,  Cascais, 1976, Arquivo Bio-Bibliográdico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, p. 89.

[9] Obras de Mário Sacramento, Diário I, Porto, Limiar, 1975, p. 236.

[10] Id. Ibid., p. 237.

[11] Esta carta já foi quase integralmente publicada, em 1975,  no nº. 20 de Aveiro e os seu Distrito, publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro, juntamente com outras "Cartas para Mário Sacramento"", que lhe foram enviadas por José Régio, António Sérgio, Casais Monteiro e Manuel Mendes, p. 40-42; na carta de Ferreira de Castro falta-lhe o P.S. final, agora retranscrito, no qual o escritor pedia a devolução dos dois documentos que enviara, por não possuir outros exemplares.

[12] Ferreira de Castro, "Um homem exemplar", in Homenagem a Mário Sacramento, Aveiro, s.e., s.d. ( composto e impresso na Tipografia <<A Lusitana>>,e distribuído pela Livraria Vieira da Cunha, ambas de Aveiro, provavelmente de 1970, editado pela Comissão de Democratas Aveirenses que organizara a romagem ao Cemitério Central e a sessão no Teatro Aveirense).

[13] Ferreira de Castro, Mensagem aos Democratas de Aveiro, Comissão Promotora das Comemorações do 65º. Aniversário do 31 de janeiro, Aveiro, 1956. Temos a possibilidade de ver na exposição, por amável empréstimo da Drª. Cecília Sacramento, o exemplar nº. 1 dessa edição,  que inclui também passos de uma carta do escritor, na qual ele renuncia aos seus direitos de autor,  não só por ter escrito a sua mensagem pelos seus amigos, que lhe haviam pedido essas palavras, mas pelas próprias ideias que elas encerram, isto é, escreve Ferreira de Castro, por mim mesmo...Este exemplar contém uma dedicatória autógrafa ao seu presado  amigo e notavel escritor Mario Sacramento, que tanto se interessou por estas pobres palavras (sic). O texto integral encontra-se igualmente publicado in Vária Escrita, nº. 3, Sintra, 1966,  p.197-199. O opúsculo publicado na altura das comemorações só reproduziu os dois últimos parágrafos e parte do antepenúltimo, certamente por falta de espaço, pois nele aparecem declarações de uma trintena de democratas , entre outros, de Rodrigues Lapa, Fernando Namora, Alexandre Cabral, Manuel Mendes, Vergílio Ferreira, Virgínia Moura, Maria Isabel d'Aboim Inglez, etc. Ferreira de Castro figura em segundo lugar na Comissão de Honra, a seguir ao Doutor António Luís Gomes. Mário Sacramento fez parte de Comissão Executiva, ao lado de Álvaro Seiça Neves, João Sarabando, Júlio Calisto e Costa e Melo. O seu nome ocupa o mesmo lugar na brochura sobre o 16 de Maio de 1828, publicada em 1956, pela Comissão Promotora das Comemorações do Aniversário da Revolução Liberal do 16 de Maio de 1828; de cuja Comissão fazia parte Mário Sacramento, que aí publicou uma "Perspectiva Histórica", tendo ficado a cargo de João Sarabando o relato dos acontecimentos.

[14] Ferreira de Castro, in II Congresso Republicano de Aveiro - Teses e Documentos, vol. I, Lisboa, Seara Nova, 1969, p. 29-33 e igualmente reproduzida in Vária Escrita, nº. 3, Sintra, 1966,  p. 239-241.

[15] Ferreira de Castro, in A sessão de 30 de Novembro de 1946 do Movimento de Unidade Democrática, Lisboa, Comissão Central do M.U.D., p. 32-38 e recentemente ressuscitada  in Vária Escrita, nº. 3, Sintra, 1996, p. 177-183.

[16] Ferreira de Castro, "Mensagem", in Campanha Eleitoral da Oposição Democrática (3ª. série), Lisboa, Serviços Centrais da Candidatura, 1949, p. 89-98 e reproduzida in Vária Escrita, nº. 3, Sintra, 1996, p.185-191.

[17] Dr. Mário Sacramento, "A Ferreira de Castro", in Litoral, Aveiro, 30 de Julho de 1966, ano XII, nº. 612, p. 1 e 9.

[18] E.C., "O Preito do Rotary Distrital", in Litoral, Aveiro, 30 de Julho de 1966, ano XII, nº. 612.

[19] No exemplar oferecido pelo autor a Mário Sacramento:  Ferreira de Castro, O Instinto Supremo, Lisboa, Guimarães & Cª. , 1968, p. 337.

[20] Obras de Ferreira de Castro, vol. IV, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1984, p. 1164.

[21] Id., Ibid., p. 1168.

[22] Elena Muriel, "Não compreendo o silêncio à volta de Ferreira de Castro", in Diário de Notícias, 11-8-1985, Destacável - Entrevista, p. 31-32.

Home Up Next