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Ontem,
na frescura e veemência de um braçado de cravos vermelhos.
Hoje,
numas pobres palavras. Pelas quais dificilmente passará a saudade e a ilimitada
admiração. Porque não sei achá-las, a essas palavras e trazê-las para o meu
texto a traduzirem sentimentos tão profundos.
Ontem,
como dizia (um "ontem" que tem quase vinte e quatro anos, pois tudo
aconteceu uns escassos meses após o nosso 25 de Abril), foi ali perto, na
estrada vinda do Porto e que atravessa Albergaria-a-Velha, que um exíguo grupo
de admiradores de Ferreira de Castro se juntou para lhe acenar o mais afectuoso
adeus, a ele que, pela última vez, atravessava terras do distrito de Aveiro,
que tanto amava.
Soube-se
a triste notícia da sua morte e a nossa Câmara Municipal, bem como o Movimento
Democrático decidiram, de imediato, prestar uma última homenagem ao grande
escritor. Convidada pelo Presidente da Câmara da altura, meu bom amigo Dr. Flávio
Sardo, fui gostosamente (que arrepio me causa, aqui, tal advérbio...) na
pequena comitiva (lamento dizer "pequena", mas é verdade) e coube-me
a honra, certamente uma das maiores que a vida teve para me dar, coube-me a
honra de transportar e depositar sobre o caixão do meu querido Amigo as flores
de Abril que, mais do que a ninguém, lhe pertenciam. Por certo, uma lágrima
também orvalhou as nossas flores. No momento em que o cortejo fúnebre parou
para receber a nossa homenagem, não havia lugar para discursos. Também, se
palavras tivesse havido, elas não seriam certamente, tão carregadas de
tristeza.
Foi,
pois, o nosso último "encontro", este que comovidamente rememoro
hoje, numa altura em que outro grupo de admiradores de Ferreira de Castro (também
pequeno? Oxalá não. Meu Deus, como temos necessidade do amor dos outros...)
decidiu promover, com a simplicidade que o nosso Amigo tanto prezava, uma
singela homenagem de saudade e admiração, na altura do centenário do
nascimento do escritor. Um reencontro. Uma vontade de segurar água da Vida, que
se nos escoa constantemente pelas mãos doridas... E aqui estou, inserida nesta
saudade evocativa, a acompanhar os que se esforçam por achar um nome para o
Desencanto, outro para a Ausência, outro para o "Sempre" - que
decide, bloqueia, fecha. Erguido, Agressivo. Aqui estamos, pois a segurar, por
momentos, um Tempo ido, nos testemunhos que dele ficaram, tantos e tão
valiosos, como veremos e ouviremos nas sessões que se realizarão proximamente
no Centro de Congressos, em que espero encontrar muitos Amigos e admiradores de
Ferreira de Castro. Aqui estou hoje, como atrás disse, apenas com umas simples
palavras, a dizer "Presente, querido Amigo. Vais estar connosco, na poalha
do Tempo, que se foi depositando, como um murmúrio longínquo, nas nossas memórias.
No meu coração.".
É
este o meu recado. E aqui o deixo em comovida expectativa.
Antes
de terminar, gostaria de recordar tão grande Amigo, ainda que em brevidade, num
ou outro encontro que foi acontecendo nas encruzilhadas dos nossos caminhos.
Ajudarei assim, talvez, a conhecer o grande escritor de quem vamos falar nas
nossas reuniões, grande entre os grandes, e, a par disso, o extraordinário
Homem que também foi. Sim, excepcionalmente grande na sua dimensão humana.
Conhecemo-nos
em Lisboa, no hotel em que nos hospedávamos, eu e o meu Marido, quando lá íamos
de vez em quando e no qual Ferreira de Castro tinha um quarto alugado, em
modalidade, digamos, permanente, para se isolar, sempre que podia, a fim de
escrever em total sossego, como tanto gostava. Felizmente, os seus dias se
haviam humanizado. Já tinham acabado os tempos difíceis que atravessara, na míngua
das coisas mais essenciais à vida, como pão e o abrigo. Podia agora - e bem
merecia - gozar deste conforto de que a sua sensibilidade tanto necessitava.
Era
no Hotel Mira-Parque, ao lado do Parque Eduardo VII, numa artéria não central,
onde havia, portanto, um relativo silêncio. E onde havia grandes janelas que se
abriam para a maravilha de um extenso arvoredo. Pudera! Ferreira de Castro, se
alguma coisa muito amou, essa foi a Natureza. Como não haveria ele de escolher,
para seu poiso de trabalho criativo, tal sítio?
Ali
nos encontrávamos, pois, amiudadas vezes. E sempre tínhamos a companhia de
Ferreira de Castro durante as refeições, porque ele fazia questão que assim
confraternizássemos. E a bica, tomada no bar do hotel, era o momento final, em
cada dia de tão extraordinária convivência.
Quantas
coisas, a esse respeito, poderia contar, mas já vai longo o meu texto. Apenas
recordarei - e muito brevemente - mais um ou dois episódios que marcaram a nossa
amizade: a visita que o grande escritor me fez, quando aconteceu o falecimento
do meu Marido. A fraternidade presente e comovedora dum momento tão pesado. A
companhia a querer diminuir a solidão. A dádiva do mais caro é.
E, um ano mais tarde, na primeira grande homenagem a Mário Sacramento, promovida pelos seus bons Amigos de Aveiro, aqui esteve o nosso Ferreira de Castro, outra vez em Fraternidade, ao lado do saudoso Mestre Dr. José Pereira Tavares a presidir à evocação que então se fez. De novo, na altura a acompanhar-me a casa. Tão grande este Homem, um gigante no talento e na bondade e no afecto! Eu - eu tão insignificante... Mas era um ser humano a suportar uma enorme dor. Isso o via, isso o sentia este Amigo. E foi assim que aconteceu merecer-lhe, no abraço que me deixou ao despedir-se e ao ver-me tão tocada por tudo o que se tinha passado naquela tarde, merecer-lhe, à sua atenta sensibilidade, ao seu desejo de deixar ajuda, este desabafo (que eu sempre considerei uma confidência) que quis ser coragem para quem dela tanto precisava: "Eu estou consigo,* minha amiga. Compreendo bem o que sofre, porque já passei pela mesma situação. Foi um estado semelhante que me fez ir para a Madeira. Aí escrevi, depois, como sabe Eternidade".
Querido Amigo. Não há riquezas destas senão em raros momentos. Eu fiquei acompanhada - tanto! Eu fiquei enriquecida. Ainda hoje o estou, na minha gratidão. Por isso, talvez leia e releia os belos livros de Ferreira de Castro. Tanta vez! "Batem na porta das palavras", gratos, tanta vez, os sentimentos que em mim ficam perante tal dádiva que nos deixou. Tal companhia: a de um Homem cheio de bondade, a escrever para os seus contemporâneos tantas e tantas mensagens de esperança para os mais deserdados, os oprimidos, os desamparados. Mensagens de Amor, sempre, para toda a Humanidade. Parafraseando Guimarães Rosa, que, ao autografar um livro para um amigo, dizia que "escrevia a dedicatória do Palácio Encantado da Amizade" - eu diria, em relação a Ferreira de Castro: implícita, em todos os seus livros, está, para cada leitor, uma afectuosa dedicatória, escrita do Palácio Encantado da Fraternidade.
Folhas, Letras & Outros Ofícios, Ano II, Nº 3 . Aveiro: Grupo Poético de Aveiro (Junho, 1998), 8-10.
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