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Num
texto publicado em 1985 e dedicado a Álvaro Salema - que foi sempre fiel a
Ferreira de Castro e à sua obra - David Mourão-Ferreira perguntava: «Como se
explicará o injusto silêncio que se abateu sobre a obra de Ferreira de Castro,
depois da morte do seu autor? Justificar-se-á este silêncio por aquele
conhecido fenómeno da chamada «passagem pelo purgatório», que
particularmente afecta os escritores que em vida mais bafejados foram pelo êxito
e pela glória? Sendo assim, já vai sendo tempo de tal passagem conhecer o seu
termo, de sobre a obra do romancista de A Selva voltarem a incidir as
atenções do público e, mais ainda, de sobre ela surgirem enfim renovadas
perspectivas críticas.»
David
Mourão-Ferreira escreveu estas palavras em 1985. Entretanto, mais dez anos
passaram e as tais «renovadas perspectivas críticas» não surgiram nem dão
sinais de virem a surgir num futuro próximo. Fenómeno idêntico se está a
verificar com outros romancistas que tiveram grande êxito popular, em vida:
Fernando Namora, Alves Redol, Carlos de Oliveira, José Rodrigues Migueis... Será
que o nosso proverbial desleixo lusíada é o responsável por estas travessias
prolongadas do deserto? Que eu saiba, a universidade portuguesa tem desprezado
de modo ostensivo figuras como Ferreira de Castro, Namora ou Redol e quase
nenhuma atenção tem prestado a Régio ou a Migueis. Entretanto, um Vergílio
Ferreira ou uma Agustina Bessa-Luís são um autêntico maná para teses de
mestrado ou de doutoramento. Irá o futuro, em contrapartida, vingar os
primeiros e fazer esquecer os segundos? Será a atenção que a universidade dá
aos escritores o melhor garante de imortalidade? Ou será antes o seu quase
garantido beijo da morte? Aqui fica um punhado de perguntas a que prefiro, por
agora, não responder.
Apraz-me
contudo, - e sobremodo - verificar que, em universidades como a de Manchester,
Ferreira de Castro não tem estado esquecido e que é um dos escritores
portugueses contemplados pelo seu estudo e pelo seu carinho. Se posso dar um
testemunho pessoal, gostaria de aqui deixar claramente dito que, apesar do meu
se encontrar habitualmente ligado ao grupo da presença, que estudei com
algum cuidado, as minhas preocupações, interesse e até paixões literárias
se têm alargado para muitos outros horizontes, nacionais e estrangeiros. Nem só
da presença vive o homem. E, gostaria, por isso, de dizer que Ferreira de
Castro foi um dos meus interesses que começaram na minha adolescência - tinha
eu 15 anos quando li, com verdadeira paixão, romances como A Selva, Tempestade,
Eternidade e Terra Fria. E, logo a seguir, A Lã e a Neve
e, um pouco mais tarde, A Curva da Estrada. Confesso, por outro lado, que
só muito recentemente me dispus a ler a colectânea de narrativas curtas, A
Missão e o volume póstumo, Fragmentos, que inclui o romance
O
Intervalo, o qual vai
servir-nos para uma proposta um bocadinho especulativa. E, já agora, para a
confissão ser completa, não terei remédio senão dizer que não li nunca o último
romance publicado por Ferreira de Castro, em vida; refiro-me a O Instinto
Supremo, embora alguma coisa tenha lido sobre ele. Em contrapartida - e
ainda na minha adolescência - mercê de um pequena biblioteca que um tio-avô
meu possuía em Lourenço Marques, li com alguma embaraçada volúpia alguns dos
romancinhos com que Ferreira de Castro iniciou a sua carreira e que mais tarde
se recusou a integrar no «cânon» que ainda hoje prevalece: Carne Faminta
(1922), A Morte Redimida (1925), ou A Peregrina do Mundo Novo
(1926), entre outros. E ainda recentemente tive o prazer saudosista e melancólico
de adquirir, no mercado dos alfarrabistas, em estado de conservação discutível,
uma destas noveletas que irei acarinhar, entre as espécies bibliográficas que
mais prezo...
Quis,
com tudo isto, dizer apenas que o «presencista» Eugênio Lisboa não
veio aqui falar de Ferreira de Castro, à falta de melhor assunto, como quem se
descarta de um dever aborrecido, para logo passar «ao que mais importa».
Ferreira de Castro foi-me sempre uma referência importante, tornando-se-me por
isso bastante intoleráveis as «boquinhas» que lhe tem feito a crítica
portuguesa e a universidade portuguesa, que não o público português o qual,
felizmente, o continua a ler.
É
ainda a Mourão-Ferreira, que foi um dos nossos críticos mais notáveis e também
um dos de maior coragem e abertura, que vou buscar estas palavras, a um tempo
reveladoras e justiceiras: «Numa literatura de bacharéis [a portuguesa] e de
licenciados, de filhos-família aplicadinhos ou boémios, a fereza da sua [de
Ferreira de Castro] aprendizagem da vida nas selvas do Amazonas e a experiência
de autodidatismo de que jamais se envergonhará constituem, desde logo,
relevantes marcas de outras tantas imperdoáveis formas de «transgressão».
Mais tarde, quando lançado numa senda sem horizontes de êxitos fáceis ou
imediatos, ei-lo demonstrando a coragem necessária para imprimir um rumo de
seriedade e de gravidade a quanto escrevia; e ei-lo, então, rapidamente alçapremado
à rara e invejável categoria dos autores com audiência universal.»
E
Mourão-Ferreira acrescentava ainda: «Entretanto, no seu país de origem, a
imperante crítica sofisticada da época, sempre mais sensível ao significante
que ao significado, sempre com modelos estrangeiros da última hora a
servirem-lhe de bitola de apreciação, permitia-se fazer Ia fine bouche perante
as produções de uma força comunicativa que, pela flagrância das vivências e
a sinceridade dos relatos, por inteiro baralhava os seus conceitos -preconceitos
- e às avessas colocava os seus binóculos de reduzido alcance. Era de resto a
mesma crítica que, pela mesma altura, embora por motivos diferentes, se
mostrava incapaz de compreender a grandeza de um Aquilino, os invulgaríssimos
dons de um Migueis ou de um Nemésio.»
Mourão-Ferreira
punha aqui o dedo na ferida: ima ferida que é hoje ainda mais aguda do que o
foi no nosso passado literário. Hoje, mais do que nunca, se valoriza a chamada
«escrita» - o significante - em detrimento do conteúdo, do significado, ou,
se quiserdes, da «mensagem» (palavra perigosa). Cada vez mais enfronhados num
psitacismo ou num neo-gongorismo que se tornou uma espécie de «terror literário»,
toda a gente finge admirar e extasiar-se até perante a escrita esquizofrénica
de certos escritores ou diante dos aforismos desvairados de outros, em
detrimento dos testemunhos fortes mas despretensiosos, humanos mas desataviados
de um Ferreira de Castro ou de um Redol. «Para a literatura «sem testículos»,
observava Alexandre Pinheiro Torres, «ser grande é correr os cafés de Lisboa
de Breton no sovaco. Ferreira de Castro», acrescentava o professor de Cardiff,
«era o escritor simples, sem «literatura», nem pose de erudições francesas,
nem bossa para glosador das modas além-pirenaicas. Para ele, o necessário (na
época em que escreveu os seus livros fundamentais) era dizer, mostrando como
os portugueses viviam, o que é que eles eram, e dizê-lo bem alto ao
mundo que sempre o leu, uma vez que pronunciá-lo era incriminar todo um sistema
de repressão de séculos (oitocentos anos de História, quase oitocentos anos
de Ditadura) que se agudizava pelos anos 30, e que ia culminar nos fascismos
europeus, de que foi, exemplarmente, sempre feroz e estrénuo opositor.»
Pinheiro
Torres carrega talvez um pouco nas tintas da antítese. Entre o humanismo
despretensioso de Ferreira de Castro e a literatura «sem testículos» que já
aqui baptizei de neo-gongorismo (e a que parecemos ter um pouco regressado), há
por certo lugar para uma literatura menos intensamente comprometida e na qual o
domínio da imaginação e as aventuras da linguagem têm genuíno direito de
cidade. Falando precisamente de Ferreira de Castro a propósito da publicação
de O Instinto Supremo, Jacinto do Prado Coelho delineou uma outra hipótese
de antítese menos adstringente quando afirmou: «Há duas linhagens de
escritores, uns realizam-se comunicando as suas experiências, por vezes à
beira do abismo, entregando-se aos poderes da imaginação e da linguagem,
visando emoções puramente estéticas, alheios às consequências ético-sociais
dos seus livros, arautos até de um individualismo exacerbado, revoltado,
indiferentes ao labéu de inúteis ou à acusação de dissolventes. Escritores
de torre de marfim, ou então demoníacos, malditos. Outros, porém, fazem
literatura possuídos da consciência de um dever para com o próximo, a escrita
é para eles veículo de uma mensagem, obedecem a uma vocação que é
simultaneamente literária e cívica, são, através da palavra, através da ficção,
construtores de homens, pedagogos.» Ferreira de Castro pertenceu, por certo, a
esta segunda categoria de escritores.
Com
o 25 de Abril e com o regresso da democracia que coincidiu, curiosamente, com a
morte de Ferreira de Castro (a qual ocorreu em Junho de 1974) e com a liquidação
do império, deu-se um fenómeno singular. Talvez em
reacção
à súbita consciência de uma diminuição de dimensão geográfica que se
constituiu numa espécie de trauma inesperado, o discurso literário, em vez de
se tornar aberto e transparente, como que se «fechou» ainda mais numa espécie
de preciosismo neo-gongórico, circumvoluto, bandarrista e altamente caprichoso.
A esquerda passou a desprezar o que antes promovera e os escritores do
neo-realismo - de que Ferreira de Castro fora quase inocente precursor -
passaram a tornar-se uma espécie de «embaraço» para os neo-convertidos ao
novo regime do discurso romanesco e poético. Ter ou não ter uma escrita «estimulante»
(leia-se bizantina) - eis a questão. Quanto mais complicada a estrutura e a técnica
narrativa, mais a salvo de contaminações neo-realistas se encontravam os novos
argonautas da literatura portuguesa - e tanto mais garantias tinham de uma crítica
que simpaticamente os acolhesse e promovesse. Num regime assim, Ferreira de
Castro estava fadado a um longo período de esquecimento, até que uma nova onda
de revigoramento da literatura o repescasse para a luz do dia.
Julgo,
mas não estou certo disso, começar a verificar-se, me Portugal, um certo cansaço
com esta literatura psitacista, complicada mas não necessariamente complexa, na
qual abundam os trambolhos premiados, promovidos, traduzidos e antologiados mas,
quase sempre, na realidade, pouco lidos. Oxalá esta minha suspeita venha a ter
confirmação. Seria então a altura de se fazer justiça crítica a uma obra a
que o povo português tem feito justiça singela e espontânea. «Prolongando o
humanitarismo social do século XIX», disse Urbano Tavares Rodrigues, fazendo,
em 1963, justiça à obra do autor A Selva, «e já à beira do realismo
dialéctico, situa-se entre nós a obra tão cheia de humana simpatia, de
universal amor por criaturas e coisas, por tudo o que vive, que é a de Ferreira
de Castro, quando nos pinta a miséria e a solidão, mesmo quando nos desvenda a
trama das injustiças que constituem certas camadas da sociedade em antagónicas
castas de opressores e oprimidos, mesmo quando nos apresenta a necrose dos indivíduos
a quem o peso dos hábitos e a força das ambições, das veneras, o ópio do
conformismo, vão esvaziando dos ideais juvenis...»
É
precisamente esta imagem de «simpatia humana» que, com justiça, se lhe tem
afixado ao ponto de se tornar um «cliché» quase embaraçoso, a principal
responsável, por outro lado, por uma certa ocultação de outras componentes
mais sombrias que também irrigam - qual o rio profundo - o tecido romanesco da
obra deste importante escritor. O autor de A Curva da Estrada e de A
Missão foi um escritor bem mais complexo e plurifacetado do que quer fazer
crer a imagem d'Épinal que nos costuma propô-lo como um escritor unicamente
preocupado com a melhoria das condições sociais dos seus irmãos de todo o
mundo. Ferreira de Castro foi também isso mas não isso apenas. Não
quero aqui antecipar-me - nem vou fazê-lo - ao trabalho de investigação que,
neste sector, tomou a seu cargo o meu aluno de mestrado, Vítor Martins. A seu
tempo se verão os frutos deste louvável empreendimento.
Queira
tão só, como exemplo singular da capacidade de sondagem - e da vontade de
sondagem - do autor de A Lã e a Neve, chamar a atenção dos leitores
disponíveis para uma obra de Ferreira de Castro, por ele, infelizmente, deixada
incompleta, na qual, com surpreendente realismo e vigor, o autor nos pinta, num
quadro de modelar isenção, a implacável perseguição movida pelos
republicanos espanhóis aos anarco-sindicalistas, em vésperas da guerra civil
que ensanguentou os nossos vizinhos espanhóis. Trata-se, como tenho
repetidamente verificado, de uma obra que pouquíssimos leram, incluindo os
leitores habituais do grande escritor. Refiro-me ao romance O Intervalo.
Ferreira
de Castro morreu em Junho de 1974, mal acabara de se implantar a democracia em
Portugal: «Já os cravos de Abril tinham perdido algumas pétalas», observava
Vitorino Nemésio, que lhe votara amizade e admiração e o classificava, no seu
modo característico, como «pomba sem fel». Não chegou portanto a ver
publicado o romance que, em 1972, «rearranjara» para publicação: o já
referido O Intervalo, o qual apareceria integrado no volume de Fragmentos,
de 1975. O livro for a escrito em 1936 mas, por razões óbvias, não pôde ser
publicado nessa altura. Pertenceria como já disse, a uma vasta série de
romances, Biografia do Século XX, de que seria o 3S volume.
Além das razões políticas, que até nem seriam as mais fortes (os adversários
da República até se poderiam aproveitar do romance), havia o facto de que não
fazia nem estética, nem tematicamente, muito sentido publicar O Intervalo isolado,
sem que lhe fosse dado o verdadeiro sentido que tinha, integrado no todo a que
pertencia: «Integrado na estética do roble, quando lhe crescem as longas braçadas
e com elas vive redondamente em família, cantando em coro à passagem do vento,
se eu pretendesse aproveitar ainda «O Intervalo» teria de transferi-lo para a
estética do cipreste, que aparenta não ter ramos, é soturno e jamais canta,
por ser mudo de nascença.»
Durante
36 anos Ferreira de Castro hesitou, melhor dizia: agonizou, quanto às vantagens
ou desvantagens da publicação de um romance que pintava, com objectividade
dolorosa, a luta dos anarco-sindicalistas, no período curto de vigência da república
espanhola. Com integridade que o caracterizava, como romancista, Ferreira de
Castro dá-nos um panorama não idealista da brutalidade repressiva dos
republicanos, nos momentos em que o operariado espanhol se levantou em greves
ameaçadoras. Chega a ser penoso quando mentalmente comparamos a violência
repressiva do exército e da polícia sobre as massa operárias com aquilo que
depois viria a acontecer sob a égide de Franco.
Esta
foi mesmo a principal razão por que Ferreira de Castro teve sempre escrúpulos
em dar à luz o seu romance: por receio que a pintura realista de repressão
republicana viesse a servir afinal de munição para os franquistas, na sua
campanha de desacreditação da República.
Em
1972, contudo, entendeu que tudo isso era já história, que os ânimos, de um
lado e do outro, estariam já mais aplacados e que talvez o seu livro já não
servisse propósitos ínvios do lado de um franquismo dessorado. Preparou-se,
pois, para publicar uma versão um pouco alterada do manuscrito original, a qual
só veria a luz, como dissemos, em 1975, já após a morte do escritor.
O
romance dá testemunho da vida, entre o proletariado espanhol dos anos trinta
(imediatamente antes do começo da guerra civil), de um anarco-sindicalista
português, Alexandre Novais (note-se que o protagonista tem o mesmo credo político
do próprio Ferreira de Castro, que se reunia, num café de Lisboa, com um
pequeno grupo de anarco-sindicalistas, entre os quais, o seu grande amigo e
escritor, Assis Esperança.
É
uma pintura poderosa e emocionante da vida difícil, sem estabilidade e
frequentemente perigosa, da luta empreendida pelos operários espanhóis, num
sentido de uma melhoria geral da vida de quem trabalha.
É,
pela boca do velho «filósofo» Miguel Trebon, um dos personagens do romance,
que Ferreira de Castro nos dá a notícia da sua visão dos acontecimentos,
melhor, da sua visão do mundo, visão que impregna afinal, profundamente, toda
a sua obra:
«É
também verdade isso que disseram», observa o velho celibatário. «Mas vocês
não discutiram as raízes da árvore, trataram de apenas algumas das suas
folhas. E é das raízes que vem o mal. A humanidade está vivendo um intervalo
entre o velho mundo que apodreceu e o mundo novo que nós desejamos e há-de
vir. É um intervalo terrível, com grandes sofrimentos para muitos. Até os
donos do mundo não passam bem...» Ferreira de Castro dá aqui um dos muitos
exemplos da sua capacidade de empatia (típica dos grandes romancistas), ao ser
capaz de se «identificar» também com o sofrimento inevitável que a
metamorfose do mundo iria trazer às classes possidentes...
Alexandre
Novais e todos os companheiros estavam agudamente conscientes de viverem imersos
neste intervalo necessário, do qual nem sequer estariam muito certos de
sair vivos. Mas dispunham-se a pagar o preço. Num momento comovente do romance,
Alexandre Novais observava com os seus botões (note-se que o livro é escrito
por ele, na 1a pessoa): «Deitado de costas e olhos no tecto,
puerilmente ia pensando que se fosse necessário deixar decapitar-me para que o
mundo se transformasse e tivesse fim toda a amargura humana que dele ressumbra,
eu deixaria decapitar-me sem hesitação alguma. Pessoalmente, já nada
beneficiaria dessa metamorfose, mas que importava, que importava, se eu seria
feliz com a certeza de que os outros beneficiavam? Visionava difusamente um
homem suspendendo pelos cabelos a minha cabeça decepada e iria talvez sentir
horror, mas de súbito lembrava-me de existir algures uma estátua fixando
exactamente essa imagem.»
Esta
visão de um intervalo entre o velho mundo da exploração e a
utopia-a-haver, de um intervalo que significava luta - permeia toda a obra de
Ferreira
de Castro que mais não é que um repetir do testemunho de vidas situadas nesse
intervalo: A Selva, Imigrantes, Terra Fria, A Lã e a Neve, A
Curva da Estrada são outras tantas biografias de fantoches angustiados que
aspiram a emergir de um intervalo de luta para um mundo novo em que cessaria a
exploração e o homem viveria finalmente livre.
O
próprio Ferreira de Castro viveu toda a sua vida nesse intervalo e quando
julgava ter finalmente saído dele - eis que a morte o surpreendeu. Como as suas
próprias criaturas ficcionais estava destinado a ser um homem do Intervalo. O
seu último romance publicado assumiu assim o estatuto de um símbolo irónico e
quase escarninho, de todo não merecido por aquele homem tolerante, bom e sábio
que foi Ferreira de Castro. Talvez no fundo tivesse afinal razão o filósofo
americano George Santayana, quando afirmou: «Ideal society is a drama enacted
exclusively in the imagination».
Quem sabe, pergunto eu, um tanto atrevidamente, se «o intervalo» não é apenas o emblema, a metáfora trágica desta nossa condição humana, perpetuamente armadilhada entre um velho mundo de escuridão, exploração e alienação e um mundo novo a que se aspira e não chega nunca a acontecer.
Folhas,
Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de
Aveiro (Junho, 1998), 12-18.
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