O Apátrida Universalista

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Ferreira de Castro: o apátrida universalista

por Vítor Martins

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Segundo Eduardo Lourenço, o patriotismo, a que se refere com o recurso às aspas, foi o elemento de combate pela República e, após a implantação desta, o seu suporte. Foi, porém, durante o salazarismo que se inculcou o "culto patológico da lusitanidade"51, existindo, apesar disso, "gente menos «visionária» e menos delirantemente «patriótica»."52

Seguramente, Ferreira de Castro foi um desses espíritos pouco visio­nários, a quem o patriotismo folclórico e popularmente cultivado pelo regime, pouco afectava. Não queremos com isto apresentar F. de Castro como anti­patriótico. Desejamos, apenas, afirmar que F. de Castro defendia uma noção muito própria de patriotismo e que não se tratava, para si, de algo a que conferisse um valor assinalável.

Censurável seria igualmente, e por isso compreendemos a insegurança do autor, a noção de patriotismo que apresenta, não exactamente pela sua ausência, mas pela sua especificidade e peculiaridade. Na verdade, não se trata de uma total lacuna de sentimentos que liguem o indivíduo ao seu país, mas, o facto é que F. de Castro desmonta a noção de patriotismo, opondo-a àquela que realmente valoriza: o amor à aldeia nativa.

Aquilo que vulgarmente se denomina por patriotismo é, para F. de Castro, certamente influenciado pelo ambiente de mitificação do povo por­tuguês pelo Estado Novo, um sentimento artificial, uma construção conven­cional e racional. Por outro lado, o amor ao local de nascimento é autêntico, porque emotivo, egocentrista e permanente, enquanto que o patriotismo é apenas accionado com emoção "no perigo e nos grandes vexames nacio­nais...".53 Só nessas situações, em que se questionam a integridade e o orgulho nacionais, se unem os indivíduos, numa onda patriótica, movida por essa defesa, mas também pelo combate contra os outros, cuja identidade é sentida como diferente e como oponente. Porém, e como os conflitos dentro dos próprios países e as guerras civis, muitas vezes mais acirradas que as outras, o atestam, o patriotismo não é algo que una um povo constante e perma­nentemente, tendo apenas essa capacidade em situação de conflito com um outro povo exterior, após o que se esbate.

A artificialidade do patriotismo e a sua inoperância revelam-se ainda mais quando se verifica a ausência de qualquer influência sua nos sentimentos mais profundos e mais humanos: o facto de dois indivíduos provirem de duas pátrias diferentes não impede, nem favorece, o amor, o ódio, a concórdia ou a discórdia entre eles. E mesmo se, exteriormente, alguém pretender impor racionalmente essa barreira ou essa ponte, consoante os casos, tais sentimentos não cedem.

Isto acontece pois "os mais profundos sentimentos humanos, uma vez acesos, não cabem nos limites duma pátria, por muito grande que ela seja."54 Além disso, e se, por um lado, os homens são menos condescendentes em relação aos opositores seus compatriotas do que aos que são estrangeiros, esses mesmos homens assumem-se como os maiores patriotas, quando um estrangeiro ofende o seu país, não por este, mas porque essa ofensa é uma ofensa vista como pessoal. Deste modo, o indivíduo vê-se reflectido na pátria, e o desmerecimento desta é um desmerecimento do próprio indivíduo.

F. de Castro opõe, desta forma, o amor patriótico ao amor da aldeia nativa, pela naturalidade deste e pela racionalidade do primeiro. Assim, ao contrário do amor patriótico, suscitado com "a ajuda das criações artificiais do cérebro",55 o amor pela aldeia provém das lembranças ou da vivência dos seus hábitos e costumes; do que lá possui; e das recordações de infância que, atenuam o trauma do envelhecimento e da consciência da morte, panorama que faz atenuar qualquer vivência negativa dessa infância, vista à distância com olhos mais benignos, pela certeza da sua irrecuperabilidade, tomando-a, quiçá, melhor do que, de facto, foi.

Porém, esse amor não implica o desejo de se fixar na sua terra, devido ao que Castro confessou ser o seu "nomadismo temperamental, sempre faminto da poesia do Mundo inteiro."56 Aliás, F. de Castro, desde cedo, desejara percorrer essa distância em busca desse outro mundo ilimitado, e tão mais vasto do que a sua própria terra. Nascia já aí a sua tendência nómada, por via daquilo que apelidaríamos de seu universalismo.

Na verdade, F. de Castro não se assume como um patriota, tal como o patriotismo era entendido, mas sim como um universalista: ou seja, aquilo que ousaríamos denominar um patriota de todas as pátrias, unidas pelo amor fraternal, que não conhece delimitações político-geográficas. F. de Castro define mesmo o universal, como sendo "a fusão e a compreensão solidária de todas as aldeias, vilas, cidades, planícies e montanhas do Mundo...".57

Apresentando-se, assim, desde cedo, como um universalista, a quem as fronteiras demarcavam somente o espaço e não a sua mente, F. de Castro não se prenderia ao Portugal, que, apesar de tudo, denomina de seu, uma vez que o seu universalismo lhe provoca uma sede de conhecimento de todo o mundo. Se este sentimento e esta tendência já eram em si naturais, desde novo, quando a consciência política não influenciariam o seu pensamento e o seu modus-vivendi, eles seriam mais vivazes, face ao descontentamento relativamente à imagem que se criava e mantinha de Portugal. Porém, tal imagem não correspondia à realidade que, naturalmente, ia desenhando em seus escritos e que a censura se encarregava de eliminar.

Na verdade, e segundo Roberto Nobre, ao contrário da literatura regionalista, em que o popular era visto como tropo estilístico e pitoresco, F. de Castro, como afirmou aquele seu amigo, em 1966, "resolveu que a sua literatura fosse, não como então ela era concebida, mas um documento humano e social.(...) Era o neo-realismo, embora então ainda assim não estivesse crismado.",58 encarado como uma forma de fazer literatura, em que se nota uma preocupação social, distinguindo-se, assim, da literatura virada apenas para si própria.

Compreensível se torna que F. de Castro desse alento ao seu universalismo, tanto mais quanto não aceitava a imagem que o regime queria transmitir de Portugal, "pátria oficialmente ditosa, que se afirmava ser invejada por todas as outras e por alguém velada dia e noite, à luz de um candeeiro medievo, para felicidade de todos os filhos",59 rotulados de ingratos, se apontassem algo que não se conformasse com essa imagem.

Disso mesmo tinha F. de Castro consciência, tal como sabia que ao representar a realidade e não a imagem mítica de Portugal ofendia essa pátria, envolta na ilusão da grandeza nacional, que era, na verdade, "uma nociva ilusão que não tinha sequer o gosto a sonho da dos tempos sebastiânicos, porque era premeditada, imposta e não se confessava."60

Preocupando-se, essencialmente, com os grandes problemas de toda a humanidade, como referia Alexandre Novais, a propósito de F. de Castro, num texto que nos surge como pórtico de O Intervalo, o autor de Eternidade tinha consciência das injustiças que se verificavam por todo o mundo, em que só uma minoria tem condições para viver, por isso, buscando esse futuro melhor, seja onde for. Assim se explica a emigração e assim se verifica a artificialidade das fronteiras, pois para esses desafortunados, a terra que "ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes...",61 não passa de uma pátria virtual, "pois aquela que lhes é atribuída pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos. É assim na Europa e é assim nos outros continentes."62

Se não nos tivéssemos já dado conta de que o homem, enquanto indivíduo universal, é aquilo que o autor de A Selva valoriza e com que se preocupa, em detrimento de qualquer noção de pátria, essa constatação seria agora evidente. Na verdade, imbuído de uma preocupação de justiça humana e social, F. de Castro no meio de um mundo injusto, feito só para os happy few, observa que a pátria, seja ela qual e onde for, é como que uma instituição que se serve dos seus filhos para sua defesa militar e que vive das contribuições monetárias que lhes retira, sem que haja moeda de troca para todos eles.

Essa preocupação era movida pelo sonho de um melhor futuro pessoal, mas também pelo sonho de "uma sociedade justa para todos os homens, um mundo bem diferente daquele em que vivíamos."63 e em que os homens, na sua maioria, se defrontam desde há muito com problemas, "enquanto esperam pela justiça que tem demorado tanto."64

De facto, o autor da Eternidade apresentava-se, em 1966, como "um escritor independente, que ama a liberdade e a justiça social, um escritor que jamais solicitou fosse o que fosse ao seu País e que discorda profundamente das ideias oficiais.",65 vividas num clima que frequentemente designava com a expressão paz podre.

Mas ama Portugal por aquilo que sempre o caracterizou, ou seja, a afeição portuguesa pela sua independência, e pela sua ambição de estar "ao lado das ideias novas que triunfam nas nações verdadeiramente civilizadas."66 Trata-se de características latentes, porque atrofiadas pelo regime que, assim torna o país "uma coisa inócua, sem nada, nada que o redima, como agora."67 Note-se que este agora se refere a 1926, ano do próprio golpe de 28 de Maio, revelando, desde logo, a sua oposição ao regime.

Amava, contudo, a sua terra, repetimos, mas, este amor não fazia de si um patriota na acepção corrente, pois, na verdade, como afirma, "Desde menino, quando não sabia ainda que viria a amar a Humanidade inteira, os povos de todas as latitudes, por cima de todas as fronteiras e de todos os conceitos de pátria, ansiei percorrer o mundo.",68 que via com olhos comparativos com Portugal, surgindo a saudade nostálgica, bem conhecida dos emigrantes "homens que procuram vencer - e tantas vezes o conseguem - os limites estabelecidos pela Natureza..."69 Experimentava esse sentimento sau­doso, se bem que em relação apenas a elementos concretos e reduzidos, uma vez que, ao afastar-se de um Portugal que não representava a justiça ou a liberdade que ambicionava, expressava apenas saudades dos amigos, como repetidamente afirmava: "E creia, Roberto, que você, ele I Assis Esperança I e mais algumas pessoas que eu estimo, são a única saudade do nosso país, no período que ele actualmente vive."70; "Nenhumas saudades de aí; todas as saudades de vocês."71; "Tenho muitas saudades de vocês. Sois mesmo a única coisa de que eu tenho saudades."72

O amor que sentia por Portugal não fazia de si um patriota, afirmámo-lo, pois F. de Castro assim se descrevia universalista, preocupado, essencialmente, com os homens infelizes e injustiçados de qualquer parte do mundo, pois essas injustiças eram mais importantes do que qualquer noção de pátria, o que o levava a afirmar numa carta a Winifred L. Chappel, em 1953: "(..) a verdade é que, por cima da condição de europeu, de latino e de português, sinto na minha alma uma grande identidade com a alma de todos os outros povos."73 De teor semelhante são as suas palavras em que afirmava: "Eu não sou bairrista, não sou regionalista, não sou nacionalista; amo Portugal inteiro, a Europa inteira, o mundo inteiro; amo profundamente o povo do nosso país, mas amo também toda a Humanidade."74 Esse amor pela Humanidade passava por compreender e amar o semelhante pelo que tem de positivo e negativo, de sucesso ou de insucesso, ou seja, pelo seu todo, e pelo que intrinsecamente é. Passava, finalmente, também, por "compreender e fraternizar com os homens (...) de todas as cidades e de todas as aldeias de todos os países da Terra, por cima de todas as fronteiras e de todas as pátrias."75

Logo no primeiro contacto com as ideias de Ferreira de Castro relativamente à sua noção de patriotismo e de pátria, quis-nos parecer que o nosso autor era influenciado pelo ambiente criado pelo regime, cultor dessas noções de uma forma muito específica. Porém, Castro via, assim, essas noções serem esvaziadas de significado. Ou seja, se a pátria do regime era algo que não correspondia àquilo que julgava ser correcto, e ser patriota era amá-la como ela se apresentava, Castro não amaria essa pátria e não seria patriota. Sê-lo-ia apenas no sentido em que, apontando os seus problemas, procurava a sua melhoria. É sob este ponto de vista que Joaquim Leitão, no Diário de Lisboa, se refere a Castro: "Muito deve amar a sua pátria e a sua gente quem assim a entende, e lhe adivinha o menor geito de sofrimento."76 De igual forma, aponta Mário Gonçalves Viana: "Talvez sem querer, Ferreira de Castro faz a apologia da boa terra portuguesa e nenhuma propagando pode hoje ser mais proveitosa e fecunda, mais patriótica e honrada!"77 Neste sentido, podem encontrar-se em Castro características de um verdadeiro patriota e expressões de patriotismo que radicam no inconformismo perante o que de errado há, visando sempre a sua correcção, para se originar uma melhoria.

Aliás, é de notar que a injustiça e o sofrimento não são apresentadas por Castro como fruto de práticas exclusivas de Portugal, mas sendo do mundo inteiro de modo que, como declara David de Carvalho, "A sua visão da dor humana abrange o mundo, ofusca as diferenças de idioma, de pátria e de raça, para considerar, e nisso é grande e justo, que os indivíduos são iguais no sofri­mento, como iguais serão, um dia na plena ventura."78 Deriva daqui o carácter universal da obra de Castro, onde surgem como vítimas injustiçadas indivíduos de proveniências muito diversas, uma vez que "O visado (...) não era um determinado país, mas toda a organização social que consente em tais crimes e os explora."79

Por isso mesmo, antagónico que possa parecer, nunca apelidámos o autor de Missão de anti-patriota, já que seria patriota, mas segundo a sua noção de patriotismo que não poderia ser aplicada à pátria daquele momento. Na verdade, o mais justo para com Ferreira de Castro seria ver em si, como atrás afirmávamos, um universalista, no sentido em que valoriza cada homem enquanto indivíduo, enquanto seu semelhante, que terá a sua própria pátria, pelo que, por isso, seria Castro, acima de tudo, um patriota de todas as pátrias, ou seja, um apátrida universalista.

79 - BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro, Ed. Arcádia, Lisboa, 1961, p. 42.

Folhas, Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de Aveiro (Junho, 1998), 64-79.

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51  - LOURENÇO, Eduardo, O Labirinto da Saudade, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 5ed. 1992, p. 37.

52  - Loc. cit.

53 - CASTRO, Ferreira de. "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães & C- Editores, Lisboa, 2ª ed., s/d., pp. 43-44.

54  - Loc. cit.

55  - Loc. cit.

56  - CASTRO, Ferreira de, "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães & C- Editores, Lisboa, 2ª ed., s/d., p. 52.

57  - Op. cit., p. 54.

58  - NOBRE, R., "O escritor e Manuel da Bouça", in CASTRO, FERREIRA de NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial Notícias, Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 235.

59  - Loc. cit.

60 - CASTRO, Ferreira de, "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães & Cr Editores, Lisboa, 2ª ed., s/ d., p. 56.

61  - CASTRO, Ferreira de, in Pórtico dos Emigrantes, Guimarães & Cr Editores, Lisboa, 25a ed., 1996., p. 11.

62  - CASTRO, Ferreira de, in Pórtico dos Emigrantes, Guimarães & C.3 Editores, Lisboa, 25a ed., 1996., p. 11-12.

63  - CASTRO, FERREIRA  de, "Vida, Sonho e Drama de Roberto Nobre", in CASTRO, FERREIRA de NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial Notícias, Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 238.

64 - CASTRO, FERREIRA de, in Posfácio de 1966 de, Terra Fria, Guimarães & C.a Editores, Lisboa, 13a ed., 1990., p. 198.

65  - in TAVARES, José, Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro, Aveiro, 1970, p. 22.

66 - ibid, idem, p. 42.

67 - Loc. cit.

68  - in TAVARES, J., op. cit, p. 24.

69  - Loc. cit.

70  - CASTRO, FERREIRA de, NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial Notícias, Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 53.

71  - ibid, idem, p. 63.

72  - ibid, idem, p. 68.

73  - in ALVES, Eurico de Andrade, Ferreira de Castro - Páginas Belas, A. A. F. C, Oliveira de Azeméis, 1996, p. 29.

74  - CASTRO, Ferreira de, Mensagem aos Democratas de Aveiro, Edição da Comissão Promotora das Comemorações em Aveiro do 65 Aniversário do 31 de Janeiro, Aveiro, 1956, p. 7.

75  - CASTRO, FERREIRA de, in Posfácio de 1966 de Terra Fria, Guimarães & Cr Editores, Lisboa, 13âed., 1990., p. 198.

76  - Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed. Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.

77  - Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed. Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.

78  - Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed. Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.

79 - BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro, Ed. Arcádia, Lisboa, 1961, p. 42.

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