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Ferreira de Castro: o apátrida universalista
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Segundo
Eduardo Lourenço, o patriotismo, a que se refere com o recurso às aspas, foi o
elemento de combate pela República e, após a implantação desta, o seu
suporte. Foi, porém, durante o salazarismo que se inculcou o "culto patológico
da lusitanidade"51, existindo,
apesar disso, "gente menos «visionária» e menos delirantemente «patriótica»."52
Seguramente,
Ferreira de Castro foi um desses espíritos pouco visionários, a quem
o patriotismo folclórico e popularmente cultivado pelo regime, pouco afectava.
Não queremos com isto apresentar F. de Castro como antipatriótico.
Desejamos, apenas, afirmar que F. de Castro defendia uma noção muito própria
de patriotismo e que não se tratava, para si, de algo a que conferisse um valor
assinalável.
Censurável
seria igualmente, e por isso compreendemos a insegurança do autor, a noção de
patriotismo que apresenta, não exactamente pela sua ausência, mas pela sua
especificidade e peculiaridade. Na verdade, não se trata de uma total lacuna de
sentimentos que liguem o indivíduo ao seu país, mas, o facto é que F. de
Castro desmonta a noção de patriotismo, opondo-a àquela que realmente
valoriza: o amor à aldeia nativa.
Aquilo
que vulgarmente se denomina por patriotismo é, para F. de Castro, certamente
influenciado pelo ambiente de mitificação do povo português pelo Estado
Novo, um sentimento artificial, uma construção convencional e racional. Por
outro lado, o amor ao local de nascimento é autêntico, porque emotivo,
egocentrista e permanente, enquanto que o patriotismo é apenas accionado com
emoção "no perigo e nos grandes vexames nacionais...".53
Só nessas situações, em que se questionam a integridade e o orgulho
nacionais, se unem os indivíduos, numa onda patriótica, movida por essa
defesa, mas também pelo combate contra os outros, cuja identidade é sentida
como diferente e como oponente. Porém, e como os conflitos dentro dos próprios
países e as guerras civis, muitas vezes mais acirradas que as outras, o
atestam, o patriotismo não é algo que una um povo constante e permanentemente,
tendo apenas essa capacidade em situação de conflito com um outro povo
exterior, após o que se esbate.
A
artificialidade do patriotismo e a sua inoperância revelam-se ainda mais quando
se verifica a ausência de qualquer influência sua nos sentimentos mais
profundos e mais humanos: o facto de dois indivíduos provirem de duas pátrias
diferentes não impede, nem favorece, o amor, o ódio, a concórdia ou a discórdia
entre eles. E mesmo se, exteriormente, alguém pretender impor racionalmente
essa barreira ou essa ponte, consoante os casos, tais sentimentos não cedem.
Isto
acontece pois "os mais profundos sentimentos humanos, uma vez acesos, não
cabem nos limites duma pátria, por muito grande que ela seja."54
Além disso, e se, por um lado, os homens são menos condescendentes em
relação aos opositores seus compatriotas do que aos que são estrangeiros,
esses mesmos homens assumem-se como os maiores patriotas, quando um estrangeiro
ofende o seu país, não por este, mas porque essa ofensa é uma ofensa vista
como pessoal. Deste modo, o indivíduo vê-se reflectido na pátria, e o
desmerecimento desta é um desmerecimento do próprio indivíduo.
F.
de Castro opõe, desta forma, o amor patriótico ao amor da aldeia nativa, pela
naturalidade deste e pela racionalidade do primeiro. Assim, ao contrário do
amor patriótico, suscitado com "a ajuda das criações artificiais do cérebro",55
o amor pela aldeia provém das lembranças ou da vivência dos seus hábitos e
costumes; do que lá possui; e das recordações de infância que, atenuam o
trauma do envelhecimento e da consciência da morte, panorama que faz atenuar
qualquer vivência negativa dessa infância, vista à distância com olhos mais
benignos, pela certeza da sua irrecuperabilidade, tomando-a, quiçá, melhor do
que, de facto, foi.
Porém,
esse amor não implica o desejo de se fixar na sua terra, devido ao que Castro
confessou ser o seu "nomadismo temperamental, sempre faminto da poesia do
Mundo inteiro."56 Aliás, F. de
Castro, desde cedo, desejara percorrer essa distância em busca desse outro
mundo ilimitado, e tão mais vasto do que a sua própria terra. Nascia já aí a
sua tendência nómada, por via daquilo que apelidaríamos de seu universalismo.
Na
verdade, F. de Castro não se assume como um patriota, tal como o patriotismo
era entendido, mas sim como um universalista: ou seja, aquilo que ousaríamos
denominar um patriota de todas as pátrias, unidas pelo amor fraternal,
que não conhece delimitações político-geográficas. F. de Castro define
mesmo o universal, como sendo "a fusão e a compreensão solidária de
todas as aldeias, vilas, cidades, planícies e montanhas do Mundo...".57
Apresentando-se,
assim, desde cedo, como um universalista, a quem as fronteiras demarcavam
somente o espaço e não a sua mente, F. de Castro não se prenderia ao
Portugal, que, apesar de tudo, denomina de seu, uma vez que o seu universalismo
lhe provoca uma sede de conhecimento de todo o mundo. Se este sentimento e esta
tendência já eram em si naturais, desde novo, quando a consciência política
não influenciariam o seu pensamento e o seu modus-vivendi, eles seriam mais
vivazes, face ao descontentamento relativamente à imagem que se criava e
mantinha de Portugal. Porém, tal imagem não correspondia à realidade que,
naturalmente, ia desenhando em seus escritos e que a censura se encarregava de
eliminar.
Na
verdade, e segundo Roberto Nobre, ao contrário da literatura regionalista, em
que o popular era visto como tropo estilístico e pitoresco, F. de Castro, como
afirmou aquele seu amigo, em 1966, "resolveu que a sua literatura fosse, não
como então ela era concebida, mas um documento humano e social.(...) Era o
neo-realismo, embora então ainda assim não estivesse crismado.",58
encarado como uma forma de fazer literatura, em que se nota uma preocupação
social, distinguindo-se, assim, da literatura virada apenas para si própria.
Compreensível
se torna que F. de Castro desse alento ao seu universalismo, tanto mais quanto não
aceitava a imagem que o regime queria transmitir de Portugal, "pátria
oficialmente ditosa, que se afirmava ser invejada por todas as outras e por alguém
velada dia e noite, à luz de um candeeiro medievo, para felicidade de todos os
filhos",59 rotulados de ingratos,
se apontassem algo que não se conformasse com essa imagem.
Disso
mesmo tinha F. de Castro consciência, tal como sabia que ao representar a
realidade e não a imagem mítica de Portugal ofendia essa pátria, envolta na
ilusão da grandeza nacional, que era, na verdade, "uma nociva ilusão que
não tinha sequer o gosto a sonho da dos tempos sebastiânicos, porque era
premeditada, imposta e não se confessava."60
Preocupando-se,
essencialmente, com os grandes problemas de toda a humanidade, como referia
Alexandre Novais, a propósito de F. de Castro, num texto
que nos surge como pórtico de O Intervalo, o autor de Eternidade tinha
consciência das injustiças que se verificavam por todo o mundo, em que só uma
minoria tem condições para viver, por isso, buscando esse futuro melhor, seja
onde for. Assim se explica a emigração e assim se verifica a artificialidade
das fronteiras, pois para esses desafortunados, a terra que "ensinaram a
amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes...",61
não passa de uma pátria virtual, "pois aquela que lhes é atribuída
pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis
soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos.
É assim na Europa e é assim nos outros continentes."62
Se
não nos tivéssemos já dado conta de que o homem, enquanto indivíduo
universal, é aquilo que o autor de A Selva valoriza e com que se
preocupa, em detrimento de qualquer noção de pátria, essa constatação seria
agora evidente. Na verdade, imbuído de uma preocupação de justiça humana e
social, F. de Castro no meio de um mundo injusto, feito só para os happy few,
observa que a pátria, seja ela qual e onde for, é como que uma instituição
que se serve dos seus filhos para sua defesa militar e que vive das contribuições
monetárias que lhes retira, sem que haja moeda de troca para todos eles.
Essa
preocupação era movida pelo sonho de um melhor futuro pessoal, mas também
pelo sonho de "uma sociedade justa para todos os homens, um mundo bem
diferente daquele em que vivíamos."63
e em que os homens, na sua maioria, se defrontam desde há muito com problemas,
"enquanto esperam pela justiça que tem demorado tanto."64
De
facto, o autor da Eternidade apresentava-se, em 1966, como "um
escritor independente, que ama a liberdade e a justiça social, um escritor que
jamais solicitou fosse o que fosse ao seu País e que discorda profundamente das
ideias oficiais.",65 vividas num
clima que frequentemente designava com a expressão paz podre.
Mas
ama Portugal por aquilo que sempre o caracterizou, ou seja, a afeição
portuguesa pela sua independência, e pela sua ambição de estar "ao lado
das ideias novas que triunfam nas nações verdadeiramente civilizadas."66
Trata-se de características latentes, porque atrofiadas pelo regime que,
assim torna o país "uma coisa inócua, sem nada, nada que o redima, como
agora."67 Note-se que este agora se
refere a 1926, ano do próprio golpe de 28 de Maio, revelando, desde logo, a sua
oposição ao regime.
Amava,
contudo, a sua terra, repetimos, mas, este amor não fazia de si um patriota na
acepção corrente, pois, na verdade, como afirma, "Desde menino, quando não
sabia ainda que viria a amar a Humanidade inteira, os povos de todas as
latitudes, por cima de todas as fronteiras e de todos os conceitos de pátria,
ansiei percorrer o mundo.",68 que
via com olhos comparativos com Portugal, surgindo a saudade nostálgica, bem
conhecida dos emigrantes "homens que procuram vencer - e tantas vezes o
conseguem - os limites estabelecidos pela Natureza..."69
Experimentava esse sentimento saudoso, se bem que em relação apenas a
elementos concretos e reduzidos, uma vez que, ao afastar-se de um Portugal que não
representava a justiça ou a liberdade que ambicionava, expressava apenas
saudades dos amigos, como repetidamente afirmava: "E creia, Roberto, que
você, ele I Assis Esperança I e mais algumas pessoas que eu estimo, são a única
saudade do nosso país, no período que ele actualmente vive."70;
"Nenhumas saudades de aí; todas as saudades de vocês."71;
"Tenho muitas saudades de vocês. Sois mesmo a única coisa de que eu tenho
saudades."72
O
amor que sentia por Portugal não fazia de si um patriota, afirmámo-lo, pois F.
de Castro assim se descrevia universalista, preocupado, essencialmente, com os
homens infelizes e injustiçados de qualquer parte do mundo, pois essas injustiças
eram mais importantes do que qualquer noção de pátria, o que o levava a
afirmar numa carta a Winifred L. Chappel, em 1953: "(..) a verdade é que,
por cima da condição de europeu, de latino e de português, sinto na minha
alma uma grande identidade com a alma de todos os outros povos."73
De teor semelhante são as suas palavras em que afirmava: "Eu não sou
bairrista, não sou regionalista, não sou nacionalista; amo Portugal inteiro,
a Europa inteira, o mundo inteiro; amo profundamente o povo do nosso país, mas
amo também toda a Humanidade."74
Esse amor pela Humanidade passava por compreender e amar o semelhante pelo que
tem de positivo e negativo, de sucesso ou de insucesso, ou seja, pelo seu todo,
e pelo que intrinsecamente é. Passava, finalmente, também, por
"compreender e fraternizar com os homens (...) de todas as cidades e de
todas as aldeias de todos os países da Terra, por cima de todas as fronteiras e
de todas as pátrias."75
Logo
no primeiro contacto com as ideias de Ferreira de Castro relativamente à sua noção
de patriotismo e de pátria, quis-nos parecer que o nosso autor era influenciado
pelo ambiente criado pelo regime, cultor dessas noções de uma forma muito
específica. Porém, Castro via, assim, essas noções serem esvaziadas de
significado. Ou seja, se a pátria do regime era algo que não correspondia àquilo
que julgava ser correcto, e ser patriota era amá-la como ela se apresentava,
Castro não amaria essa pátria e não seria patriota. Sê-lo-ia apenas no
sentido em que, apontando os seus problemas, procurava a sua melhoria. É sob
este ponto de vista que Joaquim Leitão, no Diário de Lisboa, se refere
a Castro: "Muito deve amar a sua pátria e a sua gente quem assim a
entende, e lhe adivinha o menor geito de sofrimento."76
De igual forma, aponta Mário Gonçalves Viana: "Talvez sem querer,
Ferreira de Castro faz a apologia da boa terra portuguesa e nenhuma propagando
pode hoje ser mais proveitosa e fecunda, mais patriótica e honrada!"77
Neste sentido, podem encontrar-se em Castro características de um verdadeiro
patriota e expressões de patriotismo que radicam no inconformismo perante o que
de errado há, visando sempre a sua correcção, para se originar uma melhoria.
Aliás,
é de notar que a injustiça e o sofrimento não são apresentadas por Castro
como fruto de práticas exclusivas de Portugal, mas sendo do mundo inteiro de
modo que, como declara David de Carvalho, "A sua visão da dor humana
abrange o mundo, ofusca as diferenças de idioma, de pátria e de raça, para
considerar, e nisso é grande e justo, que os indivíduos são iguais no sofrimento,
como iguais serão, um dia na plena ventura."78
Deriva daqui o carácter universal
da obra de Castro, onde surgem como vítimas injustiçadas indivíduos de
proveniências muito diversas, uma vez que "O visado (...) não era um
determinado país, mas toda a organização social que consente em tais crimes e
os explora."79
Por
isso mesmo, antagónico que possa parecer, nunca apelidámos o autor de Missão
de anti-patriota, já que seria patriota, mas segundo a sua noção de
patriotismo que não poderia ser aplicada à pátria daquele momento. Na
verdade, o mais justo para com Ferreira de Castro seria ver em si, como atrás
afirmávamos, um universalista, no sentido em que valoriza cada homem enquanto
indivíduo, enquanto seu semelhante, que terá a sua própria pátria, pelo que,
por isso, seria Castro, acima de tudo, um patriota de todas as pátrias, ou
seja, um apátrida universalista.
79 - BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro, Ed. Arcádia, Lisboa, 1961, p. 42.
Folhas,
Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de
Aveiro (Junho, 1998), 64-79.
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51
- LOURENÇO, Eduardo, O Labirinto da Saudade, Publicações Dom
Quixote, Lisboa, 5.ª ed. 1992,
p. 37.
52
- Loc. cit.
53
- CASTRO, Ferreira de. "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães
& C- Editores, Lisboa, 2ª ed., s/d., pp. 43-44.
54
- Loc. cit.
55
- Loc. cit.
56 - CASTRO, Ferreira de, "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães & C- Editores, Lisboa, 2ª ed., s/d., p. 52.
57
- Op. cit., p. 54.
58
- NOBRE, R., "O escritor e Manuel da Bouça", in CASTRO,
FERREIRA de NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial Notícias, Câmara
Municipal de Sintra, 1994, p. 235.
59
- Loc. cit.
60 - CASTRO, Ferreira de, "A Aldeia Nativa" in Os Fragmentos, Guimarães & Cr Editores, Lisboa, 2ª ed., s/ d., p. 56.
61
- CASTRO, Ferreira de, in Pórtico dos Emigrantes, Guimarães
& Cr Editores, Lisboa, 25a ed., 1996., p. 11.
62
- CASTRO, Ferreira de, in Pórtico dos Emigrantes, Guimarães
& C.3 Editores, Lisboa, 25a ed., 1996., p. 11-12.
63
- CASTRO, FERREIRA de, "Vida, Sonho e Drama de Roberto Nobre", in
CASTRO, FERREIRA de NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial
Notícias, Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 238.
64
- CASTRO, FERREIRA de, in Posfácio de 1966 de, Terra Fria, Guimarães
& C.a Editores, Lisboa, 13a ed., 1990., p. 198.
65 - in TAVARES, José, Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro, Aveiro, 1970, p. 22.
66
- ibid, idem, p. 42.
67
- Loc. cit.
68
- in TAVARES, J., op. cit, p. 24.
69
- Loc. cit.
70
- CASTRO, FERREIRA de, NOBRE, Roberto, Correspondência, Editorial Notícias,
Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 53.
71
- ibid, idem, p. 63.
72
- ibid, idem, p. 68.
73 - in ALVES, Eurico de Andrade, Ferreira de Castro - Páginas Belas, A. A. F. C, Oliveira de Azeméis, 1996, p. 29.
74
- CASTRO, Ferreira de, Mensagem aos Democratas de Aveiro, Edição
da Comissão Promotora das Comemorações em Aveiro do 65.º Aniversário
do 31 de Janeiro, Aveiro, 1956, p. 7.
75
- CASTRO, FERREIRA de, in Posfácio de 1966 de Terra Fria, Guimarães
& Cr Editores, Lisboa, 13âed., 1990., p. 198.
76
- Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed.
Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.
77
- Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed.
Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.
78 - Citado por BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro e a sua Obra, Ed. Livraria Civilização, Porto, 1938, p. 96.
79 - BRASIL, Jaime in Ferreira de Castro, Ed. Arcádia, Lisboa, 1961, p. 42.