![]()
![]()
Poucos
autores como José Maria Ferreira de Castro possuem uma obra tão
inextricavelmente ligada à sua vida.
A
sua experiência de vida na Amazónia, dos 12 aos 16 anos, é aproveitada para
as intrigas de Criminoso por Ambição (1916), Carne Faminta (1922),
«O Escravo Redimido» (texto integrado no volume de novelas Sendas de
Lirismo e de Amor - 1925), A Selva (1930) e Instinto Supremo (1968).
A observação da vida de outros emigrantes serviu-lhe para a escrita de Emigrantes
(1928), tendo localizado no estado de São Paulo uma intriga que certamente
seria também verosímil em outros estados do Brasil.
Das
três primeiras obras citadas pouco se sabe, pois o autor não permitiu a sua
reedição, considerando-as apenas experiências de juventude.
Criminoso
por Ambição, redigida
no seringai Paraíso, quando o autor tinha 14 anos, é, no entanto, estudada por
José Tavares1, que dela transcreve
extensos parágrafos. De Ossela, freguesia onde nasceu Ferreira de Castro, parte
o herói, pobre e digno, para o Brasil, a fim de ganhar fortuna que o possa
aproximar da sua amada, menina rica que lhe corresponde na paixão, mas que é
também pretendida por um homem rico e de mau carácter. Após algumas
aventuras, Simão vai trabalhar para um seringal, nas margens do rio Purus, no
alto Amazonas, mas não alcança por esse meio a fortuna pretendida. E com um
bilhete da lotaria que enriquece, deixando a seguir o Pará para ir casar com a
sua amada a Ossela. Nesta ingénua narrativa de acção, o cenário brasileiro
do Amazonas e do Pará está apenas brevemente marcado, como o está em Carne
Faminta e em «O Escravo Redimido».
Estas
duas novelas são analisadas por Alexandre Cabral como antecedentes d'A
Selva2, pois também se
passam em seringais amazónicos, apresentando algumas coincidências de enredo
que serão mais desenvolvidas n'A Selva. Carne Faminta trata de um
incesto entre mãe e filho, num espaço social em que não há outras mulheres.
Também A Selva sublinha a frustração sexual dos seringueiros e demais
empregados, num cenário em que as mulheres escasseiam e as poucas existentes são
guardadas pelos maridos, que não hesitariam em matar a hipotética adúltera e
o seu amante. Em «O Escravo Redimido», tal como n'A Selva, aparece o
ex-escravo Tiago, em ambas as obras também conhecido pela alcunha «Estica»,
por coxear de uma perna, e em ambas este negro incendeia o barracão, causando a
morte do dono do seringai. Nas duas obras o negro Tiago solidariza-se, no episódio
do incêndio, com os seringueiros, vítimas do sistema esclavagista posto em prática
pelo patrão. Em «O Escravo Redimido» os actos esclavagistas são provocados
pela revolta dos seringueiros, causada pelo aumento dos preços dos géneros
alimentícios, num contexto de desvalorização da borracha, e Tiago recebe
claramente a solidariedade do autor, o que, aliás, é evidente no título da
novela. N'A Selva, o acto de Tiago é directamente provocado pelo facto
de o patrão ter mandado prender a um tronco cinco fugitivos com débito e de os
ter mandado chicotear até provocar sangue com um peixe-boi. Alberto imagina-se
num tribunal, como advogado de acusação de Tiago, e a atitude de solidariedade
do autor fica, assim, mais diluída.
O
facto de o autor apenas aflorar a sua experiência amazonense nestas obras de
juventude deveu-se ao misto de medo e fascínio com que o autor considera as
suas reminiscências daquele «inferno verde», nas palavras sugestivas de Olavo
Bilac. O autor confessa-o na introdução que escreveu para a edição
comemorativa d'A Selva, de 1955:
Foi
também por isso, talvez, que durante muitos anos tive medo de revivê-la
literariamente. Medo de reabrir, com a pena, as minhas feridas, como os homens lá
avivavam, com pequenos machados, no mistério da grande floresta, as chagas das
seringueiras. [...]
Esse
velho terror dominou-me sempre que tentei aproximar-me da selva nos meus
primeiros livros; e das poucas vezes que o fiz, para eles colhi apenas alguns
ramos marginais, nunca indo além do passeante distraído que estende o braço
e, sem parar, arranca a folha do arbusto erguido à beira do seu caminho3.
É
A Selva a obra que mais coincidências oferece com a vida do autor,
apesar dos elementos fictícios. Tal como Alberto, Ferreira de Castro também
emigra para Belém, capital do Pará, recomendado a um conterrâneo, que logo se
descarta da responsabilidade de o sustentar, enviando-o para o seringai Paraíso,
numa das margens do rio Madeira, no alto Amazonas. Mas enquanto Ferreira de
Castro emigra com apenas 12 anos, após a conclusão do ensino primário,
Alberto é um jovem estudante do 4.º ano de Direito e tem 26 anos,
quando se vê forçado a ir para Espanha e daí para o Brasil, para fugir à
perseguição de que são alvo os monárquicos, após a derrota de Monsanto. No
caso de Alberto, é um tio que o recebe em Belém do Pará e que o convence a ir
para o seringai Paraíso. Tanto Ferreira de Castro como Alberto para lá se
dirigem na terceira classe do barco «Justo Chermont»; Ferreira de Castro
regressa a Belém do Pará no «Sapucaia» e para Alberto também se anuncia o retorno
a Belém no mesmo barco. Ferreira de Castro regressa com 16 anos, tendo passado
quatro no seringai, primeiro como seringueiro e depois como empregado no armazém
aviador do seringai. Alberto também começa a trabalhar como seringueiro,
passando para o armazém e o escritório, devido às circunstâncias de não
produzir muito na colecta da borracha, de ter habilitações superiores às de
todas as outras personagens e também pelo facto de Binda, o antigo empregado do
armazém, ser necessário para a fiscalização do seringai. Alberto e Ferreira
de Castro têm várias outras tarefas, entre elas a de limparem e conservarem
aceso o farol que indicava à navegação a localização do seringai. Mas,
quando se consegue libertar, após alguns meses, Alberto planeia a partida
imediata de Belém para Portugal, e Ferreira de Castro passa ainda cinco anos em
Belém, totalmente abandonado pelo conterrâneo que se incumbira da sua protecção.
Foram anos em que passou da extrema miséria, em grandes períodos de desemprego
ou ocupando-se de actividades mal remuneradas, à relativa consideração que as
suas actividades jornalísticas e a publicação em folhetins do seu primeiro
romance, Criminoso por Ambição, lhe granjearam. Assim, em 1918 visita
Manaus, convidado por uma associação de poveiros, e em 1919 faz uma viagem ao
Sul do país, visitando o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades.
Foi
provavelmente nessa viagem que obteve os vastos conhecimentos sobre a paisagem e
as relações de trabalho que se verificavam no estado de São Paulo, de que dá
mostras no romance Emigrantes.
Tanto
Emigrantes como A Selva possuem personagens individualizadas, no
percurso das quais se centra a acção. No primeiro caso trata-se de Manuel da
Bouça, pobre camponês analfabeto que emigra para o Brasil em busca de melhor
sorte, com a esperança de ganhar um dote para a filha e de poder comprar as
terras circunvizinhas às suas courelas, onde pensa construir uma casa nova. No
segundo caso, é Alberto que centraliza os eventos narrados.
Tanto
Manuel da Bouça como Alberto regressam a Portugal tão pobres como tinham
partido. Manuel da Bouça, após nove anos de dura labuta no interior e na
cidade de São Paulo, vem mesmo muito mais pobre, porque entretanto perdera as
suas courelas, hipotecadas para pagar os gastos da viagem de ida, e porque lhe
morrera a mulher. O trabalho no Brasil não permite a nenhum deles sequer pagar
a viagem de regresso. Manuel da Bouça só pudera comprar a passagem devido ao
facto de, durante a confusão originada por uma revolução, ter roubado os anéis,
a corrente e um relógio a um morto. Alberto só logra libertar-se da situação
de quase escravidão que vivera no seringai Paraíso por a sua mãe se ter
sacrificado para lhe enviar o dinheiro da viagem, depois de saber que os monárquicos
tinham sido amnistiados em Portugal.
N'A
Selva assume maior
importância a experiência de vida no Brasil. Por isto o romance inicia-se em
Belém do Pará, desenvolve a descrição da viagem de vários dias no «Justo
Chermont» e centra os episódios mais importantes na descrição da floresta
amazónica e na vida vivida no seringai. Uma primeira macro-sequência passa-se
em Belém, no barco e na chegada ao seringai, consistindo nos primeiros quatro
capítulos. A macro-sequência que narra a vida na selva está estruturada em três
sequências menores. Do capítulo V ao VIII, descreve-se a selva e o trabalho
dos seringueiros. Do capítulo IX ao XIV, apresentam-se as relações sociais de
Alberto com as personagens que vivem mais próximas do patrão e narra-se a fuga
de cinco seringueiros, com c auxílio de Alberto. No capítulo XV prepara-se a
partida de Alberto, com a recepção da personagem que o vem substituir,
narra-se a chegada dos cinco seringueiros capturados, o castigo que lhes é
aplicado e o incêndio do barracão.
Emigrantes
compõe-se de um
percurso transatlântico que se organiza em três macro-sequências: Portugal -
Brasil - Portugal. A primeira parte, introdutória, localiza-se do primeiro ao
capítulo IX e apresenta as experiências na aldeia e na vila, aonde Manuel da
Bouça vai tratar da documentação, os vários passos que dá em Lisboa, a
viagem na terceira classe do navio «Darro» e os primeiros contactos com a
paisagem brasileira, quando da entrada na baía da Guanabara e do passeio por
algumas ruas do Rio de Janeiro. A parte referente à vida no Brasil, mais
extensa, pode subdividir-se em três sequências menores. Na primeira ( do capítulo
X até ao XI) desenvolve-se a consciencialização da dificuldade de encontrar
trabalho em Santos e a contratação de Manuel da Bouça para ir trabalhar num
cafezal do interior de São Paulo. A segunda sequência ( do capítulo XII ao XV)
centra na fazenda Santa Efigénia as várias experiências das personagens,
migrantes brasileiros e estrangeiros. A terceira sequência (desde o início da
«Segunda Parte» até ao capítulo V) localiza na capital uma nova experiência
de trabalho de Manuel da Bouça. Carregador num armazém, Manuel da Bouça
encontra nesta tentativa o mesmo insucesso. Contacta com outro emigrante que vem
na mesma ilusão de enriquecimento e com outras personagens pobres, tendo
algumas delas esperanças de construírem uma sociedade melhor, com uma revolução
contra o governo. Manuel da Bouça, na sua alienação, pouco compreende e pouco
participa na revolução. Embarcando em Santos, regressa a Portugal. A terceira
macro-sequência (entre o capítulo VI da segunda parte e o capítulo VIII),
cuja acção se localiza em Portugal, mostra na personagem a consciência de que
já não tem lugar na sua aldeia. Envergonhado do seu fracasso, Manuel da Bouça
mente, dando a impressão de que tivera sucesso, e vai para Lisboa esconder a
pobreza, destinado «a uma outra vida que era ainda, para ele, um enigma»4
. Na aldeia, num contraste irónico com as expectativas da partida, descobre que
quem fizera um palacete na terra que pretendia comprar fora o Nunes, que lhe
tinha tratado do passaporte e da passagem, agora enriquecido com a emigração
de outros camponeses iludidos. Este facto não causa surpresas ao leitor, pois
na primeira macro-sequência já o narrador omnisciente tinha revelado as
mentiras da propaganda que o Nunes faz imprimir num jornal.
Apesar
de Emigrantes e A Selva possuírem protagonistas individualizados,
torna-se evidente que ambos representam outras personagens, identificadas nos
títulos.
Por
detrás de Alberto, está a grande personagem da obra: a própria selva, da qual
faz parte o grupo humano que nela vive, tentando domesticá-la para a extracção
das suas riquezas. Em numerosos trechos, a selva encontra-se animizada, dotada
de um poder de agressão comparado ao das suas feras, e mesmo antropomorfizada,
como uma força oculta que combate o avanço dos seringueiros:
Era um mundo à parte, terra embrionária, geradora de assombros e tirânica, tirânica! [...] Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal, louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada. Estava de sentinela, silencioso, encapotado, a vedar-lhe todos os passos, a fechar-lhe todos os caminhos, a subjugá-lo no cativeiro. Era a grande muralha verde e era a guarda avançada dos arbustos que vinham crescer em redor da cacimba e, degolados pelo terçado de Firmino, brotavam de novo, numa teima absurda e alucinante. A selva não aceitava nenhuma clareira que lhe abrissem e só descansaria quando a fechasse novamente, transformando a barraca em tapera, dali a dez, a vinte, a cinquenta, não importava a quantos anos - mas um dia! [...] A ameaça andava no ar que se respirava, na terra que se pisava, na água que se bebia, porque ali somente a selva tinha vontade e imperava despoticamente. Os homens eram títeres manejados por aquela força oculta, que eles julgavam, ilusoriamente, ter vencido com a sua actividade, o seu sacrifício e a sua ambição [p. 158].
A
Selva é, nitidamente,
um romance de espaço, na clássica classificação de Wolfgang Kayser5.
É, sobretudo, um espaço geográfico e telúrico, em que se vem
inscrever o espaço social. A função de Alberto, personagem com maior
capacidade de reflexão, é a de orientar a focalização do mundo narrado,
vendo os seres e as situações com olhos críticos, veiculando assim a visão
do mundo do autor textual. Reagindo face aos mistérios e à exuberância da
selva, Alberto está preparado para se dar conta do drama da luta insana dos
cearenses maranhenses e pernambucanos que dela tentam arrancar meios para a sobrevivência, num sistema de trabalho que os
acorrenta ao dono do seringai, numa dívida constante que os escraviza.
Trata-se, também aqui, de migrações internas e externas, que vêm fazer
incidir a luz sobre o drama do homem transplantado do seu meio, na luta pela
vida.
Mas
é em Emigrantes que a temática da emigração mais tipicamente se
revela. Trata-se de um romance de espaço social. Manuel da Bouça é um tipo
social que representa todos os emigrantes, como se torna evidente no plural do título.
A divisão em três cenários (Portugal - Brasil - Portugal) vem representar o
percurso do emigrante português que foi típico no século XIX e na primeira
metade do século XX.
Joel
Serrão comenta um quadro de João Evangelista que revela o destino dos
emigrantes portugueses no continente americano. Entre 1880 e 1960, o Brasil
recebeu 75,7 % da emigração portuguesa6.
Noutro quadro de João Evangelista apresenta-se o número de repatriados em
estado de indigência. Entre 1919 e 1930, do Brasil regressam 9 596 indigentes,
num total de 10 496 distribuídos pelo Brasil, os Estados Unidos da América, a
França, a Espanha e diversos7.
Apesar
desses dados, o Brasil representava então o Eldorado, paraíso de todas as opulências.
A América do Norte também já começava a mitificar-se, através da propaganda
dos engajadores, como se torna evidente na primeira macro-sequência da obra e
na queixa final de Manuel da Bouça, ao pensar que, se tivesse ido para a América,
talvez tivesse enriquecido.
Mas
não apenas em Portugal se difundia o mito do Brasil-Eldorado. De toda a Europa
saíam pobres camponeses em busca das milagrosas riquezas do Brasil. As descrições
do grupo humano da terceira classe dos navios e também no Brasil mostra
italianos, espanhóis, polacos, romenos, russos, sérvios, croatas e eslovenos,
etc. - personagens que embarcam no limiar da miséria, esperando ascender, pelo
valor do seu trabalho, a um nível de vida verdadeiramente humano, e que afinal
vão encontrar a mesma miséria no Brasil. São descritos por um narrador
enternecido, em imagens colectivas que consideram globalmente o grupo humano: são
«o rebanho» [pp. 88, 136, 141, 153, etc], «dóceis animais» [p. 87], «o
grupo» [p. 135], «o feixe humano» [p. 135], «a sinistra manada» [p. 137],
«o magote de homens» [p. 154]. A terceira classe em que viajam é o «curral
humano» [p. 253].
São Paulo, interessado em fazer produzir a lavoura no interior, organizava
a recepção a estes emigrantes, oferecendo-lhes durante seis dias comida e
estadia numa hospedaria, aonde iam ter os engajadores que lhes ofereciam
trabalho nas fazendas. Alguns iam a expensas do governo estadual, com a promessa
de ganharem grandes lotes de terra para cultivo. Depois, na Hospedaria dos
Imigrantes, viam que as promessas se reduziam a um trabalho rude e mal pago por
algum coronel proprietário que com eles queria enriquecer depressa. O dono da
fazenda vendia-lhes a crédito ferramentas e géneros alimentícios, pelo dobro
do seu valor. Daí que, com o seu pequeno salário, não conseguissem saldar a dívida
e muito menos economizar dinheiro para a ascensão tão desejada.
Também
A Selva apresenta uma relação de trabalho semelhante, com a agravante
de os produtos serem vendidos aos migrantes pelo triplo e até pelo quádruplo
do seu valor, num contexto de desvalorização progressiva da borracha. Os
seringueiros estavam quase sempre em débito, pelo que dificilmente conseguiam
saldar a dívida e regressar ao seu estado. Quando algum tentava fugir, tinha
atrás de si a polícia e era geralmente levado para o seringai, onde recebia
duro castigo.
Referem-se
ainda imigrantes japoneses, vistos no «Justo Chermont», para o cultivo de
mandioca, cana e milho, nos seringais pouco produtivos. No contexto da crise
mundial dos anos 20 e 30, no Brasil a única saída para a imigração era então
a agricultura, tendo passado o tempo em que, no comércio das cidades, havia
lugar para os portugueses que se estabeleciam e que em alguns casos faziam sócios
os seus caixeiros, como aparece na literatura do século XIX, em especial na
obra de Camilo Castelo Branco. Tanto Alberto como Manuel da Bouça, nas cidades
em que aportam, são esclarecidos sobre a falsidade dessa ilusão. A ficção
certamente contribuiu para se difundir o mito do Brasil-Eldorado, mas já no século
XIX Gomes de Amorim representa, no romance Aleijões Sociais (1870), a
consciência das mentiras dos engajadores e o sistema de exploração a que eram
sujeitos os imigrantes no Brasil.
Para
além das obras referidas, Ferreira de Castro publica em 1968 a sua última
obra, cuja acção é passada em cenário brasileiro. Trata-se de Instinto
Supremo, novela que narra a missão de pacificação dos índios
parintintins, na selva amazónica, por um grupo de discípulos do general Cândido
Rondon. O famoso lema de Rondon orienta a acção dos homens enviados pelo Serviço
de Protecção aos índios e transmite-se aos trabalhadores por eles recrutados:
«Morrer se necessário for; matar, nunca!»8
. O etnólogo Curt Nimuendajú, um alemão naturalizado brasileiro, é a
personagem que assume maior relevância, servindo de porta-voz do autor, na
defesa da civilização a que querem levar os índios:
Não há dúvida que a civilização está cheia de contradições. Está. [...] Mas só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens, como pensam alguns. Há muitas pequenas e grandes satisfações que somente os espíritos instruídos podem ter. E elas compensam largamente as nossas responsabilidades e mesmo alguns novos sofrimentos que a nossa evolução nos tenha dado e nos dê [p. 983].
A
evolução da acção é linear. Uma primeira macro-sequência pode ser
identificada até ao capítulo VI, com a derrubada da mata para o acampamento, a
chegada de Nimuendajú, o recrutamento da turma expedicionária e a ida para a
floresta. No capítulo VII ergue-se o acampamento e, no terceiro dia, realiza-se
o primeiro contacto, hostil, com os índios. Vários episódios de confronto e
tentativas de pacificação preenchem esta segunda macro-sequência. Finalmente,
o capítulo XII pode consistir numa última macro-sequência, pois nele dá-se a
pacificação dos índios. Com a actuação de um intérprete, a comunicação
entre civilizados e selvagens torna-se mais eficaz. A novela conclui-se com um
telegrama em que se dá a notícia das pazes feitas e pede-se roupas e um
professor primário. A obra baseia-se em factos históricos, acontecidos em
1922, indicando o autor a bibliografia em que se baseou. Mas, para Jacinto do
Prado Coelho, «O Instinto Supremo é muito menos uma novela histórica
que uma epopeia: se o episódio narrado tem raízes na história recente do
Brasil, amplifica-se no espírito do leitor pelo seu vasto significado, como
expressão da luta vitoriosa do Homem contra a Natureza - essa luta que dá um
sentido à vida e um motivo para o Homem se orgulhar da sua dignidade»9.
Nas três obras da fase de maturidade cuja acção se passa no Brasil, estão bem representadas as características da realidade brasileira. Os diálogos utilizam um léxico e uma organização sintáctica típicos do português do Brasil, estando nalguns casos marcada a pronúncia das classes populares. Sobretudo A Selva, mas também O Instinto Supremo, apresentam um riquíssimo conjunto de informações sobre a fauna e a flora da região amazónica. Podemos, portanto, reafirmar o grande enriquecimento que ofereceu a Ferreira de Castro a sua experiência de vida no Brasil, apesar de todos os obstáculos que teve de enfrentar.
Folhas,
Letras & Outros Ofícios, Ano II, N.º 3 . Aveiro: Grupo Poético de
Aveiro (Junho, 1998), 30-37.
![]()
1
- JOSÉ TAVARES, Homenagem de Oliveira de Azeméis a Ferreira de
Castro, separata do Arquivo do Distrito de Aveiro, Aveiro, 1970.
2
- ALEXANDRE CABRAL, «Antecedentes de "A Selva"» in Livro
do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro: 1916-1966, Lisboa,
Portugália Editora, 1967, pp. 43-56.
3
- FERREIRA DE CASTRO, A Selva, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], pp. 19-20.
Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de trabalho.
4
- FERREIRA DE CASTRO, Emigrantes, Lisboa, Guimarães & Ca, [s.d.], p.
290. Daqui para diante, as páginas desta obra serão indicadas no corpo de
trabalho.
5
- Cf. WOLFGANG KAYSER, Análise e Interpretação da Obra Literária (Introdução
à Ciência da Literatura), 6a ed. revista pela 16.ª
alemã por Paulo Quintela, Coimbra, Arménio Amado, Editor, Sucessor, 1976, pp.
399-406.
6
- Cf. JOEL SERRÃO, A Emigração Portuguesa: Sondagem Histórica, 4.ª
edição, Lisboa, Livros Horizonte, 1982, p. 46.
7
- Cf. Idem, ibidem, p. 38.
8
- FERREIRA DE CASTRO, Obras de Ferreira de Castro, 3.ª ed., vol.
Ill, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1979, 4 vols., p. 959. Outra página
desta obra será indicada no corpo do trabalho.
9
- JACINTO DO PRADO COELHO, «"O Instinto Supremo": quando a ética
se torna humanitária», in In Memoriam de Ferreira de Castro, intr. e
estruturação de Adelino Vieira Neves, [Cascais], Arquivo Bio-Bibliográfico
dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976, pp.47-49 (p. 49).
![]()