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Com
algumas semanas de intervalo, foram a enterrar os escritores Branquinho da
Fonseca e Ferreira de Castro. Não só o facto de terem sido ambos membros da
SPA — e dos mais prestigiosos que ela contou — nos impele, neste momento, a
comovidamente nos debruçarmos sobre as suas figuras: antes, e sobretudo, a
qualidade dias obras de um e de outro, a exemplaridade do caso literário de
cada um deles, o rasto inapagável que o convívio dos dois deixou na nossa memória.
À
primeira vista, nada ou quase nada, durante a vida, faria crer que viessem ambos
a ser assim evocados em conjunto: eram escritores de diferentes estirpes, de
diferentes estilos, de diferentes origens, de diferentes objectivos; e com
itinerários tão diversos que praticamente nunca se cruzaram, com públicos tão
distintos que raramente coincidiam. Como foi observado por Álvaro Salema, «o
populismo da obra de Ferreira de Castro mergulha as raízes mais fundas na sua
própria origem nobremente e orgulhosamente popular»; em contrapartida, a
classe média — se bem que de signo progressista e libertário — que serviu
de berço a Branquinho da Fonseca e o esteticismo vanguardista do seu período
de formação coimbrã jamais fizeram obedecer a sua obra àquele tropismo das
«grandes massas» que sempre orientou a de Ferreira de Castro. Daí a razão
por que o autor de A Selva, antes de ser o autor de A Selva, tenha
começado, um tanto às cegas, por ir ao encontro dessas «grandes massas»
através do sensacionalisrno fácil e imediato dos seus primeiros livros (que
aliás viria a renegar), enquanto o autor de O Barão, mesmo depois de
ser o autor de O Barão, nunca tenha deixado de conservar-se, no melhor
sentido, um escritor para aquela «imensa minoria» a que Juán Ramón Jiménez
costumava aludir. Daí, por outro lado, que a obra de Ferreira de Castro mais se
impusesse por um largo e evidente sopro de «humanidade» que por qualidades
intrínsecas, quer no plano da escrita quer no dos processos narrativos; e que a
de Branquinho da Fonseca, por sua vez, sem por esse facto si mostrar menos «humana»,
constitua um exemplo perfeito, sob muitos aspectos, de discreto equilíbrio
entre modernidade e tradição. Daí, finalmente, que o «social» prepondere na
ficção de Ferreira de Castro, ao passo que são os destinos individuais, se
bem que integrados na sociedade, a ocupar o centro do universo romanesco de
Branquinho da Fonseca.
Mas,
para além destas e de outras diferenças que seria longo enumerar, Ferreira de
Castro e Brinquinho da Fonseca pertenciam afinal, pelos anos em que nasceram (em
1898 o primeiro, em 1905 o segundo), praticamente è mesma geração; as obras
de um e de outro desenvolveram-se sobretudo dentro do período do
fascismo, contra o espírito do fascismo; e tanto um como outro, por
diversas razões, não foram de modo algum autores de produção abundante — o
que não pode explicar-se apenas por 'motivos de exigência interior, antes se
radica em determinadas circunstâncias externas. Ora tais circunstâncias é que
importa justamente abordar — e, sobretudo, no órgão informativo de orna
Sociedade de Autores.
Bastará
ter presente, a este respeito, que Ferreira de Castro, depois de 1954 (ano em
que publica A Missão), apenas reaparecerá em 1968 com O Instinto
Supremo; e que
Branquindo da Fonseca, a partir de 1956 (ano em que publica Bandeira
Preta), não mais publicará nenhuma obra original. Pelo que respeita a
Ferreira de Castro, .lembraremos ainda que, desde 1928 até ao referido ano de
1954, a sua produção romanesca abrangera apenas sete títulos: Emigrantes (1926),
A Selva (1930), Eternidade (1933), Terra Fria (1934), A
Tempestade (1940), A Lã e Neve (1947) e A Curva da Estrada (1950).
O êxito nacional e internacional de A Selva (vinte e seis edições
em português, traduções em dezassete diferentes países) permitiu ao seu
autor uma profissionalização aparentemente invejável, mas que, por outro
lado, lhe terá acarretado inúmeras servidões e irremediáveis perdas de tempo
— já que o escritor português, mesmo quando profissional, não dispõe
daquele complexo aparelho de «relações públicas» de que em geral pode
dispor o de muitos outros países, tendo inclusivamente de se tornar secretário,
publicitário, agente
literário de si próprio.
Mas
o caso de Branquinho da Fonseca, literariamente falando, ainda se mostra muito
mais pungente. Desde a sua estreia até ao já citado ano de 1956 (trinta anos
ao todo), publicara, além de dois volumes de poesia (em 1926 e 1932) e de dois
outros de teatro (em 1928 e 1939), as seguintes seis obras de ficção: Zonas
(1931), Caminhos
Magnéticos (1938),
O Barão (1942), Rio Turvo (1945), Porta de Minerva (1947)
e Mar Santo (1952).
Quatro anos depois, com as saborosas narrativas de Bandeira Preta, é o
«canto do cisne». E porquê? Porque a «segunda profissão», a partir daí,
se tornaria de tal modo absorvente (ou de tal modo se transformaria naquilo que
em verdade é sempre na existência de qualquer escritor não--profissional: uma
«primeira profissão», de facto) que Branquinho da Fonseca se viu literalmente
impossibilitado de se consagrar à actividade literária. É certo que se lhe
ficou a dever, entre outras coisas, a criação de Serviço de Bibliotecas da
Fundação Calouste Gulbenkian — Serviço e Fundação de que tanto têm
beneficiado inúmeros autores, artistas e editores portugueses, entre eles, até,
alguns dos que mais hoje se apostam em denegrir o Serviço de Bibliotecas, em
denegrir a Fundação. Mas a verdade é que essa tarefa, melhor ou pior, poderia
ter sido realizada por outras pessoas; em contrapartida, ninguém mais, a não
ser Branquinho da Fonseca, poderia escrever outras novelas como O Barão, outros
contos como os de Caminhos Magnéticos
ou
de Rio Turvo. E aqui reside,
aqui tem residido, o criminoso equívoco da vida literária portuguesa: ou o
escritor se torna profissional, como Ferreira de Castro, mas nem por isso deixa
de comprometer o ritmo da sua produção, ou tem de recorrer, como Branquinho da
Fonseca, a uma profissão diferente e 'mais estável que por inteiro lhe diminui
ou extingue a capacidade criadora. Soluções para este estado de coisas? Hoje,
mais do que nunca, há que sem dúvida encontrá-las.
Em
Portugal — disse-o, em tempos, José Rodrigues Migueis — «o homem mata o
escritor». E tanto Ferreira de Castro como Branquinho da Fonseca em grande
parte foram morrendo, ou sendo «mortos», como escritores, muito antes de terem
morrido. Que os casos de um e de outro sirvam ainda, a quem de direito, para que
doravante se evite a repetição — ou a proliferação — de semelhantes «atentados»
ou semelhantes «suicídios».
D.
M.-F.
Autores,
16 (Lisboa: Julho a Outubro 1974), 14-15.
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